'As Duas Irenes’ enaltece trajetória entre infância e vida adulta

14/09/2017

Eu definiria As Duas Irenes como um momento especial do cinema nacional. Há tempos o Brasil não trazia o que as Irenes trouxeram. Para quem ainda não ouviu falar (e, nesse caso, sugiro que vá logo ao cinema), o enredo do filme sugere, logo de cara, a simplicidade entregue aos espectadores. São duas Irenes, até aí nenhuma surpresa. O que conecta os pontos entre a trajetória menina-mulher das duas diferentes personagens é o pai. As Irenes pertencem a famílias diferentes, mas dividem o mesmo pai, que vive uma vida dupla com ambas as mulheres, mães de suas filhas.

 

No filme, assim que as Irenes se descobrem, ficamos sabendo que elas dividem também a mesma idade. Treze anos. Uma fase importante na vida da menina, eu diria. Aqui deixo a Tamires de treze anos escrever um pouco desta resenha. Assim como as Irenes, também tive uma intensa fase de descobertas. As primeiras respondidas no pai e na mãe. As primeiras saídas disfarçadas para paquerar. Os primeiros passeios com os amigos, sem os pais. As primeiras roupas de mulher, não mais tanto de menina. O primeiro beijo. As Irenes de treze e a Tamires de treze têm muito em comum. É aí nesse diálogo com o espectador que o filme se faz uma obra a ser lembrada.

 

Adolescer não é um processo exclusivo, nem meu nem das Irenes. Todo adulto um dia pré-adolesceu. Então, acredito que o ponto forte do longa de Fábio Meira é ser um filme que, ainda que simples, foi capaz de dialogar com pessoas de diferentes idades, gêneros e gerações.

 

Todas as descobertas das Irenes se passam em Goiás, estado pelo qual Meira se diz apaixonado. Os cenários de interior remetem a uma época passada e foram estes cenários que me fizeram ter o devaneio introspectivo que tive enquanto assistia ao longa. Parece que mesmo ali no tempo do filme, há alguns anos atrás, as fases de descobertas que enfrentamos ao longo de nossas trajetórias são as mesmas. Ninguém escapa. Na cidade grande ou no pacato interior de Goiás, o caminhar entre a infância e a vida adulta é inevitável. As Irenes, por sorte ou destino, tiveram uma a outra para tornar tudo isso um tanto quanto mais leve. Uma delas, muito tímida, sempre reprimida pelos costumes tradicionais da família. A outra, extrovertida e comunicativa, sem medo das novas experiências e de ser punida por tê-las. As duas precisavam se encontrar.

 

Tive a oportunidade de conversar com as estrelas do filme após a sessão e aqui afirmo: são estrelas. Sem Isabela Torres, de 18 anos, e Priscila Bittencourt, de 16, as duas Irenes poderiam ter tomado um rumo diferente, talvez não tão contagioso quanto o mostrado nas telonas. Curiosamente, as meninas contam que Meira cruzou os papeis. Isabela, a mais tímida das duas, ficou com o papel da Irene mais falante e Priscila, a mais expansiva, interpretou a Irene mais quieta. Foi a primeira vez da dupla no cinema e digo que a aposta de Meira deu muito certo.

 

Não pude resistir em questionar as meninas a respeito da sensação de trazer para o cinema uma realidade vivida por elas. A adolescência não está tão longe nem de Isabela e nem de Priscila. E as duas me disseram em sintonia que foi uma aventura e tanto. Foi dando vida a um roteiro repleto de primeiras descobertas que Priscila deu seu primeiro beijo, também na vida real. Não sei dizer se foi proposital o caráter visceral dado às Irenes pelas atrizes, mas acredito que não. Tudo me pareceu muito natural. Não é comum que roteiros simples sejam tão cativantes, mas As Duas Irenes é uma mistura entre o natural e o simples que não cai no tédio. A mistura de todos os muitos pontos fortes do filme garante que fiquemos acordados, mesmo em meio a cenas desprovidas de ação e trilha sonora.

 

As Duas Irenes é sobre ser, em seu mais simples estado. Sobre o natural da vida que é se descobrir e se redescobrir, em meio a tantas coisas que não podemos controlar como estigmas, valores, crenças e escolhas alheias, inclusive a de nossos familiares. É sobre a importante decisão de saber o que seremos, se obedeceremos aos códigos sociais e quais padrões vamos aceitar.  É muito bonito ver como as Irenes, juntas, se mostram decididas a serem donas de suas próprias vidas, em uma caminhada nem um pouco forçada onde Meira respeita completamente a simplicidade do amadurecer da mulher. Tudo isso junto a um final que nos faz dar uma risadinha sarcástica muito gostosa.

 

E aí, será que te convenci a conhecer as duas Irenes?

 

 ÓTIMO

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