Crítica: 'Retablo' é comovente e delicado drama peruano

06/11/2019

Retablo é o nome de um ornamento, quase sagrado, que permeia a cultura peruana. Feito de maneira artesanal, com massa de batata, ele serve como um registro familiar, um santuário, uma caixa de recordações. É delicado, colorido, envolvente. E esses também são os adjetivos certos para resumir o drama peruano Retablo, indicado do País ao Oscar de 2020 e que chega às salas de cinema brasileiros nesta quinta-feira, 7.

 

Dirigido por Alvaro Delgado Aparicio, estreante em longas, Retablo conta a história de uma família que passa por um momento delicado. O jovem Segundo (Junior Bejar) ama a vida que leva, como ajudante de seu pai -- um famoso e querido artesão da região, chamado Noé (Amiel Cayo), que confecciona os tais retablos. No entanto, num dia como outro qualquer, Segundo acaba presenciando algo que quebra a magia ao redor do pai.

 

A partir disso, Delgado Aparicio constrói uma trama familiar que emociona, entristece, comove. Retablo, assim como o ornamento que o nomeia, é um filme que registra um momento dessa família, eternizando-o -- no entanto, nada de cores, alegria ou figuras felizes. Os tons são escuros, as cores são ocres. Não há felicidade na vida de Segundo após a tal descoberta. As coisas desandam e ele sabe que o futuro não será feliz.

O roteiro, do cineasta e de Héctor Gálvez (NN), não tem pressa em contar a história. Por mais que tenha apenas 95 minutos, o longa-metragem faz tudo com calma, em detalhes. Lembra um pouco o belíssimo Las Acácias na forma de conduzir a história -- ainda que ambas as tramas não tenham nada em comum. Há um foco nos olhares, nos gestos, na beleza de construir o retablo. Delgado Aparicio é um diretor pra ficar de olho.

 

Ainda mais por conta de alguns bem sacados planos de enquadramento. A câmera, por vezes, se torna o ornamento artesanal sendo construído. Em outras, mostra detalhes, enfatiza dramas humanos. É esperta e natural. Ajuda a entrar melhor na narrativa.

 

Junior Bejar, também estreante, não tem muitos artifícios interpretativos -- geralmente, se contenta com uma ou duas expressões. Acaba tirando alguns pontos, mesmo crescendo em intensidade no final. Já Amiel CayoMagaly Solier, os intérpretes dos pais do menino, acertam em cheio. Sabem transitar entre emoções, mesmo que sejam contidas, e emocionam na tela -- uma cena com Magaly é de apertar o coração.

 

Mas, apesar disso tudo, o grande ponto de Retablo é a reflexão que deixa no final. As sociedade como um todo, a força de relações de amizade e até mesmo a metáfora do próprio retablo. Tudo isso contribui para ampliar e intensificar o que há por trás desse delicado longa-metragem peruano. Reflexão, boa história, bons personagens. É um filme para assistir e torcer, caso avance na corrida do Oscar. Qualidade há suficientemente. 

 

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