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  • Matheus Mans

Crítica: 'Edifício Gagarine' tem delicadeza ímpar em trato com personagens


Que estreia marcante de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh na direção de longas. Edifício Gagarine, em exibição no Festival do Rio no Telecine, é daqueles filmes solares, que espantam quando vemos a filmografia dos diretores. Afinal, a produção sobre um edifício que vai ser demolido poderia ter seguido por vários caminhos desinteressantes. Mas segue o mais delicado possível.


No centro da trama, afinal, temos Youri (Alseni Bathily), um menino de 16 anos que vive sozinho nesse conjunto habitacional -- a mãe, afinal, vive em outro lugar e quase não tem mais contato com o garoto; enquanto o pai morreu há algum tempo. A demolição iminente do prédio, assim, é o pesadelo do garoto. Onde ele vai morar? Como vai fazer sem o edifício que é a sua referência?


Além disso, nesse ínterim, Liatard e Trouilh inserem detalhes na história que deixam claro que o protagonista está no espectro autista. Não há, em momento algum, tratamento espetaculoso dessa condição do personagem -- como no péssimo Music, estreia recente no Brasil. Tudo é feito com muito cuidado. Afinal, o filme não coloca os vários clichês visuais que envolvem o tema.

A obsessão do menino pelas viagens espaciais, por exemplo, serve a trama, com um aspecto bem funcional, integrando a obsessão do menino com o desejo de salvar o prédio. Aliás, a jornada do garoto para salvar o edifício é belíssima. Não só tem a questão de uma previsibilidade necessária em sua vida, como é o último elo direto com sua família, mãe e pai.


O desenvolvimento dessa história, assim, transita entre o desesperador e a delicadeza desse personagem. Sobre o primeiro ponto: Youri não abre mão de sair do local, mesmo com o início da demolição. Não há perspectivas. Sobre o segundo: os diretores mantém o tom calmo e tranquilo no trato da história do personagem, sem nunca ir por um caminho fora do tom.


O grande problema da produção acaba sendo uma barriga no meio do filme. A história patina, fica no mesmo lugar. É um momento fácil de perder a atenção do espectador. E, na conclusão, é uma bagunça: há ingenuidade na forma que a trama se desenha, encerrando de maneira quase infantil. Não combina e mostra, pela primeira vez na história, a falta de experiência da direção.


Mas tudo bem. Edifício Gagarine é delicado, ousado, inventivo. Tem uma fotografia deslumbrante, um visual marcante e uma ousadia estética que eleva ainda mais a qualidade da produção. Faltou apenas um pouco mais de cuidado na forma de arrematar o roteiro -- talvez sintoma do filme ser inspirado em um curta dos diretores. Vale pela delicadeza de toda essa produção.


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