• Matheus Mans

Crítica: 'Era Uma Vez em... Hollywood' é bom, mas falta algo a mais


É difícil falar sobre os filmes de Quentin Tarantino. Afinal, o cineasta marcou gerações com Kill Bill, Cães de Aluguel e Pulp Fiction, criando um estilo próprio e facilmente reconhecível. Por isso, e por alguns outros motivos, é difícil defini-lo, enquadrá-lo, ou até mesmo compreendê-lo em sua totalidade. Quais são suas ambições em cada frame, em cada história contada, em cada ângulo utilizado? Não dá para colocá-lo em uma fórmula única. É preciso analisá-lo emocionalmente, mais do que de maneira técnica. Vai além.

Assim, é difícil explicar o porquê de Era Uma Vez em... Hollywood não chegar no ponto alto de Quentin Tarantino. A sensação que fica é de que o longa-metragem é bom, divertido, pouco usual -- uma pura obra de Tarantino, apesar de ter menos sangue e bem mais humor. No entanto, falta algo ao final que é difícil explicar. Mas que iremos tentar explicar aqui, nessas parcas linhas, e com a especificidade dos textos do Esquina.

Primeiramente, os pontos positivos. Afinal, é melhor deixar o mais difícil pro final.

A história é interessante. Acompanha a jornada de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator de filmes de faroeste que começa a desacreditar de sua carreira e a sentir insegurança. Nesse momento difícil, ele acaba se ancorando em Cliff Booth (Brad Pitt), dublê, motorista e amigo de longa data. Juntos, eles tentam passar por essa má fase, enquanto a vida transcorre na Hollywood dos sonhos. Há brilho, glamour, sets lotados.

É a paixão de Tarantino, que foi atendente de uma locadora e se formou com os grandes clássicos. Aqui, ao longo das quase três horas de projeção, ele traz todos seus desejos e fetiches à tona. Em cada cena, em cada frame. Seja pela atenção dispensada aos pés das atrizes, ou relembrando momentos emblemáticos de alguns de seus grandes filmes -- principalmente Bastardos Inglórios. Ou, é claro, homenageando essa Hollywood que não existe mais e que ficou eternamente presa nos sonhos de cada fã do bom cinema.

E para criar esse clima, Tarantino traz ao filme o que faz de melhor. Uma ambientação incrível, com um figurino marcante, uma trilha sonora que faz qualquer um ficar saudoso (inclusive de tempos que não viveu) e uma fotografia que amplifica o dourado daquela época. Parece uma verdadeira imersão na história que Tarantino quer trazer.

Além disso, o elenco está afiadíssimo. Brad Pitt faz seu melhor trabalho na carreira -- e olha que estamos falando de alguém que tem Queime Depois de Ler, Bastardos Inglórios e Babel no currículo. Ele está leve, solto e parece genuinamente se divertir com cada cena. Leonardo DiCaprio (O Regresso, O Lobo de Wall Street) não se destaca tanto, mas, como é natural, está ótimo em tanto. Talvez fique por baixo da atuação de Pitt por causa do próprio papel, mais contido. Mas quando precisa, ele explode e brilha.

Al Pacino (O Poderoso Chefão), Dakota Fanning (Tudo que Quero), Bruce Dern (Nebraska), Kurt Russell (Guardiões da Galáxia Vol. 2) e Emile Hirsch (Na Natureza Selvagem) fazem boas pontas. A maioria delas divertidas, fazendo paródias de si mesmos. Só Margot Robbie (O Lobo de Wall Street) que está inexplicavelmente apagada.

E aí, nesse momento, dá pra falarmos das deficiências de Era Uma Vez em... Hollywood. Aqui, ao contrário dos outros longas de Tarantino, há uma dose bem menor de violência e isso, de alguma maneira, acaba contribuindo para o clima geral que o diretor se propôs a trazer. Mas, ainda assim, dá uma pontada de decepção para quem estava ouvindo notícias, há anos, de que o próximo filme de Tarantino seria sobre a história de Charles Manson. Ele aparece rapidamente numa cena pra nunca mais. É sério isso?

Ainda que o diretor trate com carinho e respeito a memória de Sharon Tate (Robbie), brutalmente assassinada por Manson na vida real, a violência que existe também traz uma pontada de decepção. Parece que Tarantino deixou a auto-homenagem tomar conta de algumas coisas e o filme em si, que poderia cair num tom mais intenso e grandioso, some por ali. Fãs mais vorazes do diretor vão se deliciar, mas o público em geral vai sentir uma falta de conexão com a história e, principalmente, com o que foi prometido.

Mas o grande problema, e que deve afetar grande parte do público, é algo parecido com o que aconteceu em Os Oito Odiados -- a demora enorme em engrenar. O filme traz cenas que não chegam a lugar algum e que duram longos minutos. Esses 165 minutos de duração teriam sido muito mais bem digeridos se durassem 130 minutos. Ou até 120. Algumas pequenas mudanças no roteiro poderiam ter deixado tudo mais leve e gostoso de assistir. Tarantino, aqui, parece que deixou os desejos atropelaram o seu resultado.

Assim, a sensação final, é de que o filme é bom, mas poderia ser MUITO melhor. Com uma boa revisão de roteiro, poderia ter sido contado de uma maneira mais original como em Pulp Fiction, por exemplo. Bastava um ou outro reposicionamento de personagem -- principalmente o de Sharon Tate. Falta algo ao final que surpreenda, que o faça ser único e especial. Afinal, o estilo incrível já é visto em Os Oito Odiados, Django Livre. A brincadeira com a história em Bastardo Inglórios. Cadê o chamariz único desse?

É um filme que poderia ser relembrado, ter se tornado marco na carreira de Tarantino. Mas se tornou apenas mais um. Muitos vão gostar. Mas poucos irão relembrá-lo.

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