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  • João Pedro Yazaki

Crítica: ‘Falcão e o Soldado Invernal’, da Marvel, acerta ao trazer pautas raciais e políticas


O ano de 2021 promete ser intenso para Marvel e Disney. O calendário da plataforma de streaming Disney+ está repleto de lançamentos um em seguida do outro, praticamente sem respiro algum. Após o sucesso astronômico de WandaVision, que se tornou a série mais assistida do mundo, a Marvel engatou mais uma em sequência, dando continuidade ao MCU (sigla em inglês para Universo Cinematográfico da Marvel). Desta vez, estamos falando de Falcão e o Soldado Invernal.


Criada por Kevin Feige, Malcom Spellman e Kari Skogland, a série se passa logo após os eventos de Vingadores: Ultimato, quando metade da população mundial retorna 5 anos depois de desaparecer - o que ficou popularmente conhecido como Blip. O mundo está uma completa desordem, pois os que voltaram do Blip querem retomar a vida como estava, mas muitas das pessoas que se mantiveram vivas durante esses anos não querem que as coisas voltem ao normal.


Diante desta questão, surgem os Apátridas, um grupo anarquista liderado pela jovem Karli Morgenthau (Erin Kellyman). Eles defendem a ideia de que não deveria haver países ou fronteiras e acreditam que o mundo estava melhor durante o Blip, quando as nações passaram a ignorar as fronteiras e deixaram algumas diferenças de lado para ajudar aqueles que restaram a se reerguer. Em sua maioria, o grupo é composto por jovens que se refugiaram em países da Europa ocidental e nos EUA após suas famílias desaparecerem. Porém, agora que todo mundo retornou, eles sofrem o risco de serem deportados para seus respectivos países, para onde não querem retornar.


Em paralelo a isso, Sam Wilson (Anthony Mackie) e Bucky Barnes (Sebastian Stan) também precisam lidar com a vida pós-Blip, visto que eles também foram vítimas do estalo de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita. Bucky, o Soldado Invernal, tenta levar uma vida de redenção devido aos traumas de seu passado, enquanto Sam, o Falcão, precisa se recompor diante da sua família, que sofre as duras consequências da volta à normalidade. Além disso, existe um dos pilares centrais desta história: quem será o novo Capitão América? Após Sam receber o escudo de Steve Rogers, seu parceiro de trabalho e melhor amigo, ele é tomado pelo dilema de não saber se está preparado para carregar um fardo tão pesado. Ainda por cima, por ser um dos heróis coadjuvantes e também por ser negro, está receoso se a população irá aceitá-lo como o novo “Símbolo da América”.


Percebe-se que logo no primeiro episódio, a série quer abordar alguns temas da atualidade, como a situação dos refugiados, política e, é claro, o racismo. É possível dizer que é o maior acerto de Falcão e Soldado Invernal. Diferente do que vimos na maioria das produções da Marvel, temos aqui várias discussões que deixam a série mais interessante e original, principalmente quando envolve múltiplas questões raciais na trajetória de Sam. Com muita frequência, o protagonista precisa lidar com o fato de ser um super-herói negro. Entender a tamanha responsabilidade por trás disso e o quanto ele representa para tantas pessoas, é um dos núcleos de sua jornada.


Bucky, por sua vez, não foi deixado de fora. O investimento emocional no personagem de Sebastian Stan também é bem aprofundado. Para quem acompanhou o segundo e terceiro filme do Capitão América, sabe que Bucky Barnes sofreu muito sendo manipulado por criminosos e obrigado a cometer assassinatos em série contra a sua vontade. Aqui, sua jornada é marcada pela busca de se redimir e se tornar uma pessoa diferente do que era.


Assim como a de Sam, a trajetória emocional do Soldado Invernal é introspectiva e cheia de obstáculos. Além disso, os assuntos éticos e sociais que acompanham cada um deixam a narrativa mais densa, humana e rica. Diferente do que estamos acostumados com os produtos da Marvel, a abordagem tridimensional desses personagens foi um acerto em cheio.

No entanto, a série peca ao tentar desenvolver arcos narrativos em excesso, fazendo com que tenham alguns momentos mal aproveitados e outros inflados até demais. A líder dos Apátridas, por exemplo, não tem tanto carisma ou desenvolvimento quanto deveria. Suas motivações são fortes, porém pouco convincentes, justamente por não mostrarem o suficiente para ter o impacto necessário. As problemáticas sobre os refugiados são muito interessantes e importantes para a atualidade. A Marvel nunca tratou desse tema tão relevante em seus conteúdos, mas acaba falhando em não dar a devida atenção.


Acompanhado a Sam, Bucky e Karli, existem outros protagonistas que dão vida ao enredo: o Barão Zemo (Daniel Brühl), que retorna ao MCU depois de sua participação como vilão em Capitão América: Guerra Civil, e John Walker (Wyatt Russell), um soldado de alta patente das forças armadas dos EUA. Este que, por sinal, é uma das melhores coisas da série. Não querendo dar muitos spoilers por aqui, mas John Walker se mostra um personagem tão bom quanto Sam e Bucky. É claro que seu desenvolvimento não chega a ser da mesma profundidade da dupla de heróis. Todavia, muito do que a série apresenta de bacana é decorrente das ações de Walker e suas consequências. De fato, será um personagem que muitos irão lembrar.


Por outro lado, temos Zemo que, desta vez, não é um dos protagonistas da narrativa como foi anteriormente. Na verdade, seu papel aqui serve para ajudar na construção do arco de Bucky e nada mais. Logo, muitos podem se decepcionar com Zemo, por esperarem dele o que demonstrou antes. Ao longo da história, vemos outros rostos conhecidos desse universo compartilhado, algo que serve mais como um agrado aos fãs da Marvel do que qualquer outra coisa. Algumas aparições são interessantes, porém nada de muito significativo.


No geral, a nova produção da Disney+ não é tão diferente do que já vimos. Iremos acompanhar os heróis partindo em uma investigação dos planos dos Apátridas e sua líder. Inclusive, uma das premissas principais está relacionada ao soro do supersoldado, algo abordado no MCU desde o primeiro filme do Capitão América. Sendo assim, não há tantas novidades fora os protagonistas e suas jornadas individuais. Se por um lado, WandaVision apostou em diversificar a estrutura narrativa, aqui o argumento é mais simples e direto. Mas, convenhamos, não deixa de ser um bom e divertido entretenimento.


Sam e Bucky são carismáticos, tanto como dupla quanto individualmente. São fáceis de se conectar, pelo fato do enredo explorar o lado humano de cada um, coisa que a Marvel sempre faz muito bem. Vemos recorrentemente nossos heróis errando, acertando, enfrentando angústias e até mesmo tendo que lidar com o dia-a-dia de uma pessoa comum.


E não podemos esquecer, é claro, que se falamos de super-heróis, falamos de ação. Diferente de seu antecessor, a série foca bem mais nas cenas de ação, as quais se demonstram mais relevantes para a história do que vimos em WandaVision. Mesmo seguindo o mesmo padrão da Marvel que conhecemos, elas impressionam com seus estilos e variedades. Não é nada de muito memorável, mas a ação é bem feita e divertida de assistir.


Portanto, Falcão e Soldado Invernal é um tanto genérica enquanto narrativa, mas brilha em concentrar sua força em Sam Wilson, Bucky Barnes, John Walker e nas abordagens político-sociais que englobam esses personagens. Por sinal, é possível dizer que as cenas mais dialogadas, com foco no texto, são bem mais atrativas do que as que envolvem luta, que acabaram ficando em segundo plano no fim das contas. E mais do que isso, o foco em temas bastante relevantes para a atualidade é o que faz de Falcão e o Soldado Invernal uma boa série da Marvel.

#Crítica #Série #Marvel #Televisão

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