• Matheus Mans

Crítica: filme sobre Tunga faz passeio na vida do artista plástico


O artista plástico Tunga nasceu como Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, mas levou o apelido pela vida. Não só para assinar suas obras, que hoje viajam o mundo, como também no dia a dia, no cotidiano. Ninguém o chamava de Antônio, de José. Era Tunga para os íntimos, para os fãs, para os inimigos -- se é que estes existiam. Afinal, devia ser difícil não gostar do artista, nascido em Pernambuco, e que levava o experimentalismo ao extremo em seus desenhos, suas esculturas e as suas instalações.

No filme Tunga, o Esquecimento das Paixões, dirigido por Miguel de Almeida e que chega aos cinemas nesta quinta, 9, o experimentalismo está espalhado por todo lugar. Faz jus à arte que Tunga apresentou na vida. Curto, de apenas 70 minutos, o documentário faz um passeio pela vida do pernambucano e tenta chegar ao âmago de seus pensamentos. E, para isso, a forma é tão importante quanto o conteúdo visto. Não daria para contar sua trajetória e sua importância num filme de depoimento e arquivo.

Miguel de Almeida, então, mescla o áudio de entrevistas e depoimentos com imagens fortes e provocativas de instalações de Tunga. Não que ele faça movimentos ensandecidos de câmera. Ele apenas deixa que as obras do retratado falem por si só. Ou seja: volta a revisitar a forma tradicional de se fazer documentários, mas com tempero. Algo que o diferencia na multidão. Como em A Vida Extra-ordinária de Tarso de Castro.

Além disso, agrega camadas interessante à Tunga. Seus entrevistados, bem escolhidos e sem exageros, conseguem trazer novos enfoques em cima da complexidade do personagem. Por meio de depoimentos, mostram interpretações da obra do pernambucano e, ao mesmo tempo, trazem releituras dele próprio. Afinal, é quase impossível dissociar Tunga de suas provocações artísticas. Um é o outro, e vice-e-versa.

No entanto, ao contrário do documentário sobre o ilustre jornalista brasileiro, a ruptura com formato acaba por causar alguns desvirtuamentos no conteúdo. Por mais que a linearidade narrativa esteja ali, é difícil de acompanhar. Há muitas quebras na lógica do que é contado, muitas histórias cortadas ao meio -- tudo em nome do experimentalismo. Isso acaba por afastar um público novo, que desconhece a obra de Tunga. Mesmo sendo curto, vai sobreviver até o final apenas aquele que já aprecia o artista. É um decréscimo.

E apesar dessa falha, Tunga, o Esquecimento das Paixões é um filme que merece destaque pela ousadia do seu realizador e, em segunda instância, por trazer à tona um artista pouco conhecido entre os seus conterrâneos e que atingiu marcas impressionantes -- como o fato de ser o único brasileiro a ser exposto no Louvre, em Paris. Uma pena que o experimentalismo tenha atingido tanto o conteúdo. Tunga é alguém que precisa ser mais e mais incensado em todo o País. Precisamos ter orgulho.

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