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  • Matheus Mans

Crítica: 'Millennium: A Garota na Teia de Aranha' é thriller monótono


O sueco Stieg Larsson escreveu, na década de 1990, três livros fortes com personagens marcantes e uma trama de tirar o fôlego. Era a trilogia Millennium, que conquistou fãs ao redor de todo o mundo e emplacou duas ótimas adaptações cinematográficas -- a primeira sueca, com Noomi Rapace e Michael Nyqvist; a outra americana, com David Fincher na direção e Rooney Mara e Daniel Craig no elenco. Agora, a trama volta às telonas com A Garota na Teia de Aranha, dando continuidade aos mesmos personagens, mas com novos atores e baseados na trama de David Lagercrantz, sucessor de Larsson.

Sobre este último fato, já fica a estranheza da ideia central. Afinal, Lagercrantz passou a escrever livros com os personagens de Millennium anos após a morte de Larsson, no início dos anos 2000. É a continuação direta da trilogia e que não agradou a maioria das pessoas. Afinal, as histórias são sem a alma do que foi lido nas obras originais e sem sal. Além disso, há uma continuação direta dos três livros -- várias ações que os personagens passam a tomar diferem por conta de acontecimentos traumáticos ou marcantes. Difícil entender as motivações de adaptar Lagercrantz dessa maneira.

A Garota na Teia de Aranha, então, já começa com o desafio triplo: ter que elevar a história, para ficar bem mais atraente do que é de fato; dar um jeito de contextualizar a história novamente, já que mudaram os atores do primeiro filme; e, principalmente, construir os personagens de um modo que as ações não se tornem impensadas ou sem sentido para os que acompanham a história apenas nos cinemas. Essa bomba caiu nas mãos do diretor Fede Alvarez (O Homem nas Sombras) e dos roteiristas Jay Basu (Fast Girls) e Steven Knight (Locke). E, infelizmente, falharam grosseiramente nessa tarefa.

O primeiro estranhamento é o mais natural possível: o elenco. Escolhas arriscadas dos produtores, Claire Foy (The Crown e O Primeiro Homem) e Sverrir Gudnason (Borg vs McEnroe) não conseguiram encaixar nos papéis de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist, respectivamente. A atriz não cria nada além do visual afrontoso da personagem e, em vários momentos, parece apenas a rainha da Inglaterra com roupas pretas, cabelo curto e piercings variados. É uma excelente profissional, mas não funcionou aqui. Gudnason é relegado ao papel de coadjuvante e cria o pior Blomkvist até hoje. Apático e sem graça.

Grande parte da culpa, porém, não é dos atores. O roteiro do trio Basu, Knight e Alvarez não se desenvolve em nenhum sentido. Não melhoram a narrativa de Lagercrantz -- pelo contrário, pioram -- e não conseguem criar grandes momentos em uma trama que prometia tensão. É aquela velha sensação que indica que algo vai acontecer, mas, no final, fica só nisso. Além disso, são clichês em cima de clichês numa trama que se apoia em facilidades. São as câmeras hackeadas em segundos, certezas infundadas, atitudes sem pé nem cabeça que funcionam como em um passe de mágica. Já cansou isso tudo.

Fede Alvarez, que surpreendeu no tenso O Homem nas Sombras, parece ligado no automático: filma as cenas sem emoção, faz ligações entre sequências de maneira óbvia e não faz bom uso de tudo que tem à mão. A direção de Foy é apática e o inverno opressor ao redor da personagem também é ignorado e usado apenas como ambientação -- mais para o que Boneco de Neve fez do que Terra Selvagem e a própria trilogia sueca de Millenium. Falta criatividade e ousadia num filme que, de tão banal, se torna monótono e sem sentido. Fica a dúvida do motivo da história ser revisitada agora.

O que funciona aqui é apenas uma ou outra cena de violência bem orquestrada, como uma que envolve Foy e a atriz Sylvia Hoeks (Blade Runner 2049); e a câmera interessante do fotógrafo Pedro Luque (O Homem nas Trevas), que não é tão marcante e instintiva quanto a de Jeff Cronenweth no filme de David Fincher, mas consegue deixar a sua marca registrada. De resto, até a trilha sonora não consegue deixar lembranças.

Uma pena, então, que Millenium não ganhe uma nova roupagem mais entusiasmante, tensa e que honre, de fato, a obra de Larsson. É apática, distante e não consegue se aprofundar em toda a complexidade que os personagens oferecem. Fãs da história, sem dúvidas, vão se decepcionar com o resultado geral da produção; e os que buscam apenas um bom thriller vão encontrar uma trama sem ousadia e sem criatividade. Nem sombra do que Fincher fez. Uma pena ver quando produções caem assim de qualidade, ainda mais tendo uma material de matriz tão bom, rico, forte e plural.