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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Segredo de Davi' é boa ideia que se atrapalha na execução


Antes quase unanimidade nas mãos -- e unhas -- de Zé do Caixão, o horror ficou adormecido por décadas no cinema nacional até ser resgatado de forma palatável por produções como As Boas Maneiras e Animal Cordial. Não está no ponto perfeito ainda, é claro. Falta mais experimentação, mais riscos, mais identificação. Mas a coisa já começa a chamar ainda mais a atenção. Uma outra produção que põe mais um tijolo no resgate é O Segredo de Davi, suspense com toque de horror dirigido por Diego Freitas.

Na trama, conta-se a história de Davi (Nicolas Prattes), um rapaz estranho, quase anti-social, e que começa a apresentar traços de sociopatia quando vasculha sua memória, sua família e seu passado. No meio desse turbilhão, ainda há uma estranha relação com a avó Maria (Neusa Mario Faro), com o tio Carlos (Eucir de Souza), com a sobrinha Doris (Bianca Muller) e com o amigo da faculdade Jônatas (André Hendges). É, em suma, um estudo de personagem pontuado por toque de horror, suspense e cinema muito autoral

É incômodo, então, o primeiro contato da audiência com a obra. Por mais que tenha apuro estético, O Segredo de Davi é uma imersão no passado, na memória e nos problemas que o próprio diretor Diego Freitas (Sal) enfrentou em sua vida. É difícil de entender, compreender e mergulhar na ideia, por mais bem realizada que ela seja. Há um desejo verdadeiro de querer mergulhar naquilo, entender o suspense psicológico e sentir medo, tensão. A única coisa que funciona nesse ponto é a atuação precisa de Neusa Maria Faro (Alma Gêmea, a novela), uma atriz completa, entregue e competente.

E assim o filme se arrasta por quase toda sua execução. Há sacadas visuais incríveis, como uma mistura de objetos do presente e do passado e figurinos que trabalham para a construção geral da história. O personagem de João Côrtes (o ruivo da Vivo) é chatérrimo, pouco funcional e sem sentido. Só deixa a trama mais inchada, atrapalhada.

O que levanta o ritmo na metade da história é uma tensão sexual do protagonista com os personagens de Bianca Muller (A Repartição do Tempo), que está bem, e com o estreante em longas André Hendges, que está esforçado, mas ainda passa artificialidade e momentos forçados. Essa tensão, afinal, levanta o interesse, apesar da conclusão ser frustrante. Parece, de fato, que Diego tem medo de colocar algo mais tenso e picante na tela -- como foi dito na coletiva de imprensa, logo depois. Difícil.

A coisa só entra nos eixos nos minutos finais, quando o filme eleva a qualidade e, finalmente, faz com que toda a história contada até ali faça sentido. É uma reviravolta que poderia ter sido adiantada para fazer com que o filme não fosse tão arrastado, tão non-sense. É uma manobra de roteiro, que Diego não teve, e que poderia ter deixado o filme dele menos pessoal e mais história, mais ficção. Fica estranho, fica fora de tom e pouco abrangente. Pessoas que forem ao cinema sem informação alguma ficarão perdidas.

Destaque para a atuação de Prattes (O Tempo Não Para), que alavanca a qualidade do final do longa. Ainda está muito preso à métodos e artifícios, mas deve crescer na carreira.

O Segredo de Davi é um bom filme, com estética inteligente e atores inspirados, mas que se perde em metáforas, em relatos pessoais demais e alguns recursos narrativos que não são utilizados de forma inteligente por Diego. Também falta um pouco de coragem para fazer com que o longa-metragem seja um horror, dos bons, como foi As Boas Maneiras e Animal Cordial. Faltou coragem, faltou cinema. Mas a tentativa valeu.