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  • Matheus Mans

Crítica: 'Palace II' é filme-denúncia sobre desabamento no Rio


Foi na semana de Carnaval que o Palace II tremeu. O prédio ficava na orla da Tijuca e fazia apenas alguns meses que os moradores tinham se mudando e transferido seus sonhos para um dos pontos mais nobres do Rio de Janeiro. Ninguém imaginava, então, o que aquele tremor queria dizer. E, com certeza, ninguém pensava que o prédio, dali algumas horas, desabaria levando sonhos, pertences, lembranças e, inclusive, algumas pessoas que não quiseram ou não puderam descer para se salvarem. Uma tragédia.

Esta é a história do filme Palace II, 3 quartos com vista para o mar, documentário de Gabriel Corrêa e Castro e Rafael Machado que se debruça sobre esse caso que chocou o Brasil na década de 1990. E chocou não apenas pela queda repentina desse edifício. Mas também por todo o crime que corria nos bastidores da construção, comandada por uma empresa do falecido deputado Sérgio Naya. Um daqueles tipos de criminosos que parece saído de um filme. É ganancioso, prepotente, arrogante.

E as cenas escolhidas pela dupla de cineastas do documentário ajudam a construir a ilustração geral dessa tragédia. Corrêa e Castro e Machado não se furtam em partir para uma posição assumida à favor das vítimas -- como é lógico que aconteça. Ele mostra como essas pessoas sofreram enquanto Naya e seus asseclas levavam a vida numa boa. Lembra, inclusive, as tragédias recentes de Mariana e Brumadinho, onde a Vale e a Samarco saíram com pouquíssimos prejuízos. Mostra que o Brasil anda em círculos.

É potente os depoimentos colhidos pelos cineasta e que ajudam a colocar Palace II num outro nível de documentário. Não fica só na elucubração. Ele vai além, entra no âmago dos problemas, e provoca. Provoca a reflexão, o debate, as emoções. Difícil sair impassível de algumas cenas -- inclusive as de arquivo, bem escolhidas e editadas.

No entanto, volta-se sempre à questão central dos documentários. O bom e velho formato de entrevistas-depoimentos e imagens de arquivo. E repete-se tudo novamente. É algo que não muda, que não surpreende. Muito menos aqui, na história do Palace II, que foi difundida por todo o Brasil por conta da tragédia que se armou no Rio de Janeiro. Falta sagacidade aos realizadores -- e isso não é uma coisa única de Rafael e Gabriel -- em buscar meios de ousar narrativamente ou, até mesmo, na estética. Falta o tempero.

Por isso, Palace II é um filme que traz debates, é bem feito, conta com bons depoimentos e desperta emoções. Só falta trazer o inusitado, a surpresa, alguma boa sacada cinematográfica. É algo que os filmes documentais recentes, seja no Brasil ou no exterior, estão devendo ao público. Mas, ainda assim, vale a pena assistir Palace II para os que querem entender melhor o que aconteceu e como essa tragédia se desenrolou. Sem dúvidas, algum sentimento vai ser despertado. E isso sempre é bom no cinema.