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  • Matheus Mans

Crítica: 'Pegando a Estrada' é filme certeiro de Panah Panahi


A cena chama a atenção. No porta-malas do carro, uma cachorrinha doente. No banco traseiro, um homem de perna quebrada e um menino que não para quieto um único segundo, gritando e esperneando. No banco do passageiro, uma mulher aflita. E, dirigindo essa carreata improvável, um rapaz quieto, misterioso. O que eles estão fazendo? Para onde esse grupo difuso está indo?


Aos poucos, vamos entendendo algumas coisas de Pegando a Estrada, longa-metragem que está em exibição na 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O homem com a perna quebrada, interpretado por Hasan Majuni, é o pai. O rapaz dirigindo e o pivetinho são os filhos. A mulher, claro, é a mãe. Estão fugindo de algo, mas não sabemos o que é essa coisa em questão.


Afinal, não é este, de maneira alguma, o objetivo do longa-metragem. O cineasta estreante Panah Panahi, que não nega as origens por ser filho do cineasta iraniano Jafar Panahi (do premiadíssimo Táxi Teerã), foca aqui nas relações humanas dentro desse carro. A maneira que o pai se dirige ao filho mais novo, o carinho da mãe e até mesmo a preocupação com o cachorro.


Aqui, muita coisa é dita pelo silêncio, pelo olhar, pelo gesto. Uma fala entrecortada do pai preocupado, mas que não sabe expressar tão bem a emoção. A mãe que verte a lágrima enquanto olha a estrada. O silêncio sepulcral do irmão mais velho. Tudo, dentro da narrativa tão inteligente e convidativa de Panahi, vive e pulsa por vida. Tudo existe e resiste dentro do carro.

Pegando a Estrada, como o próprio nome diz, não deixa de ser um road movie -- conforme avança a jornada desse quinteto, os personagens também avançam narrativamente. No entanto, Panahi vai além daquela narrativa batida que já vimos em filmes como em On the Road, Quase Famosos e afins. Ele explora as relações humanas e a forma como uma família se configura.


Além disso, Panahi, a partir dessa história roteirizada por ele próprio, consegue explorar temáticas distintas e passear por gêneros, elevando a qualidade da narrativa. Há um certo tom político, embutido na tal fuga do quinteto, mas que nunca toma conta da produção. Há humor, principalmente por conta do exepcional garotinho. Há drama também, que surge como pontada.


Aos poucos, Pegando a Estrada deixa de ser apenas um pretenso road movie para ser algo mais. É forte, é visceral. Vemos essa família se separando, se desencontrando, em um cenário desértico. A seca toma conta enquanto as relações familiares também vão secando -- não por vontade própria daqueles personagens, mas por essa opressão (política?) que surge de fora.


A naturalidade que o cineasta filme também ajuda a elevar o tom do longa-metragem. Uma cena do pai com o filho mais velho em um riacho, por exemplo, é poesia pura. A forma que Majuni conduz aquele momento, os olhares, o abraço que não vem. A câmera, estática. Panahi preza pelo momento e deixa que os atores, com texto sensível e boas atuações, conduzam tudo aquilo.


Pegando a Estrada, no final das contas, é poesia. É uma poesia sobre vida, família, encontros e desencontros. É um olhar aguçado de um cineasta jovem, começando agora, e que já mostra como podemos nos encontrar nos desencontros -- e como o inverso também é verdadeiro. Lindo filme e, desde já, um dos bons destaques da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


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