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  • Matheus Mans

Crítica: 'Sou Carnaval de São Salvador' parece grande publicidade


Estava difícil de entender o porquê do documentário Sou Carnaval de São Salvador não ter sido distribuído em todo o País -- principalmente em São Paulo, principal praça de distribuição da indústria cinematográfica. Afinal, o longa-metragem faz um mergulho na origem e configuração da imensa festa de rua que toma o Brasil entre fevereiro e março de todo ano. De onde vem esse costume, essa tradição? Como acontece essa espécie de histeria coletiva, de onde vem o desejo de se relacionar tão aberta, tão livre, tão feliz?

No entanto, a produção de Marcio Cavalcante (Bahêa Minha Vida) consegue responder muito pouco -- ou quase nada -- dessas questões propostas logo no início da narrativa documental. Há, sim, um bom histórico de como o Carnaval surgiu, sobre como a sociedade baiana foi forjada e, consequentemente, como essa festa tomou as ruas do País. Mas os motivos dela persistir até hoje, a influência na sociedade atual, o histerismo que surge... Nada disso é aprofundado, analisado, questionado. Tudo raso.

Há boas imagens captadas por Cavalcante e o mais interessante são as sequências que mostram o Carnaval baiano nos dias atuais. É bacana ver como as pessoas se relacionam e como a formação dessa festa ainda influencia tudo que ocorre ali nas ruas de Salvador, do Pelourinho. No entanto, o roteiro, também de Cavalcante, não é esperto. Ao invés de entregar a história aos poucos e fazendo rápidos e divertidos paralelos, ele conta tudo de uma vez e, depois, parece que perde a orientação do que quer falar ali.

Tanto que, após uns trinta minutos interessantes de exibição, Sou Carnaval de São Salvador se torna exaustivo. Não apenas por conta da narração infinita de João Miguel, mas pelo motivo de que há pouco a ser dito a mais. Mas, mesmo assim, o documentário chega perto da marca dos 120 minutos. Isso mesmo: quase duas horas de um documentário sobre o Carnaval de Salvador, com uma narração ininterrupta, e sem mutia coisa a mais pra contar, já que o mais interessante foi gasto logo no início. Pois é.

Assim, o cineasta -- que resolveu colocar o tal do narrador como se fosse o próprio Carnaval contando sua história -- fica dando voltas perseguindo o próprio rabo. Em um determinado momento, começa a falar as maravilhas da cidade de Salvador. Parece uma daquelas publicidades que algumas cidades fazem de vez em quando para incentivar o turismo. É desesperador. Depois disso, ele fica fazendo uma espécie de retrospectiva de todos os grandes artistas do Carnaval soteropolitano. Até que é um tanto quanto nostálgico no começo, mas logo começa a perder a graça -- e paciência.

O que se salva, de verdade, é a qualidade técnica do longa-metragem. Cavalcante possui um estilo interessante de filmagem, que muitas vezes inverte a lógica do momento. Uma cena envolvendo um capoeirista, por exemplo, impressiona. Dá um respiro geral. A música também é bem escolhida, pontilhando entre diversos clássicos do Carnaval ao longo das décadas. Pena que, às vezes, elas comecem a se amontar exageradamente.

Ao final, Sou Carnaval de São Salvador se torna exaustivo e vazio. Há coisas interessantes, como o início histórico, entrevistas nas ruas e um momento instigante no qual músicos fazem a evolução das canções do Carnaval -- o que deve agradar o público baiano, alvo do filme. Mas nada muito além disso. Faltam entrevistas, esperteza de roteiro, ritmo mais coeso de edição, algo mais a dizer -- e muitos minutos a menos. Fica o gosto de que faltou coisa ali para ter um conteúdo mais interessante e menos chato. Agora, é aguardar por Fevereiros, outro documentário sobre a maior festa brasileira.