• Pedro Balciunas

Em uma sociedade cada vez mais conservadora, 'Caim' é essencial


“caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus”. Não é por essas palavras que José Saramago inicia Caim, seu último romance publicado em vida, mas é por essas tortuosas palavras que o escritor português recria uma das mais famosas passagens bíblicas.

O estilo inconfundível de Saramago faz do leitor um ouvinte e não um mero receptor de palavras escritas. A sonoridade de sua escrita despontuada — e despudorada — transforma a leitura em conversa de amigos. Com narrativa curta, direta, sem meandros desnecessários, acompanhamos Caim desde o momento que assassina seu irmão Abel, pomposo por ser caro aos olhos divinos e é condenado por Deus a vagar eternamente pelo mundo. Antes, porém, temos um breve epílogo da criação humana e da expulsão do Jardim do Éden.

Caim é, o que chamamos hoje, um verdadeiro indignado, a personagem ambígua, essencialmente humana à imagem e semelhança de deus. Mata seu irmão pelo descaso do criador para com ele e se revolta com os desígnios divinos que encontra durante suas viagens — não lineares nem respeitadoras do espaço-tempo comum —  por famosas passagens bíblicas, como o sacrifício de Isaac, a construção da torre de Babel, a destruição de Sodoma e Gomorra e todo o episódio da arca de Noé.

Ateu que era, Saramago transforma o criador na imagem e semelhança de nós, suas criaturas. O Deus de vingança de Velho Testamento em “Caim” é, não somente, uma alegoria para as tiranias do próprio homem quando dotado de poder: incontestável, senhor do seu e dos outros destinos, dono de muita língua e surdo de ambos os ouvidos — quando conveniente; não é em uma nem em duas passagens da narrativa que deus é obrigado a concordar com seu condenado, respondendo ora com ira ora com o silêncio.

“Caim” também é uma obra sobre o desejo humano pelo conhecimento, não somente intelectual, mas o provido pela experiência, principalmente física. E é aqui que Saramago nos confronta com o que há de mais primitivo, selvagem e comum entre todos os animais: o sexo não reprodutor, carnal, fonte unicamente de gozo e lascívia. Seja com Lilith ou com as mulheres da família da Noé, é o sexo usado como artifício de combate contra quem esculpiu e soprou o barro como forma de criação. É o protesto, é o dizer e fazer o que se julga certo para si.

E é essa forma de combate que vemos cada vez mais evidente na sociedade atual, desmandada por um Congresso que pretende normatizar as relações humanas pelos princípios da “moral e bons costumes” bíblicos. Com todos os tons de escárnio e ironia de Saramago que essa frase possa ter, evidentemente.

Título: Caim

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2009

Preço médio: R$ 40,00

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