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No Olhar de Cinema 2026, filmes que resgatam e denunciam passados traumáticos

  • Foto do escritor: Amilton Pinheiro
    Amilton Pinheiro
  • 9 de jun.
  • 3 min de leitura

O fim de semana de exibições no Olhar de Cinema foi marcado por filmes que resgatam passados traumáticos, transformando memórias pessoais e coletivas em narrativas de denúncia, reflexão e invenção. As obras apresentadas nas mostras competitivas Brasileira e Internacional reafirmam uma das vocações do cinema: reinventar formas de contar histórias, sejam elas íntimas, comunitárias ou nacionais.


Uma das marcas da curadoria do festival é justamente apostar em filmes que desafiam a narrativa clássica ou a tornam menos palatável ao grande público, exigindo do espectador uma participação mais ativa. É um cinema que não facilita o olhar — perdoem o trocadilho — e que encontra ecos em cineastas como Jean-Luc Godard e Júlio Bressane. Ao mesmo tempo, há espaço para obras de construção mais tradicional. O importante, no fim das contas, é a potência da história contada, cada uma à sua maneira.


Quando os deuses se revoltam contra os “comedores de terra”


Em determinado momento de Maxita, documentário das mineiras Mariana Machado e Ana Maria Machado, Davi Kopenawa observa a paisagem transformada pelo rompimento da barragem de Brumadinho e questiona a lógica do homem branco, que ele define como pertencente ao povo dos “comedores de terra” — sejam os garimpeiros da Amazônia ou as mineradoras que há séculos exploram o solo mineiro.



Essa é a principal premissa do filme, exibido na Mostra Competitiva Brasileira. A partir dos depoimentos de Kopenawa e de Ailton Krenak, duas das mais importantes lideranças indígenas contemporâneas, o documentário estabelece um paralelo entre o avanço do garimpo em terras yanomami e a tradição mineradora de Minas Gerais, responsável por profundas transformações ambientais e humanas.


Com pouco mais de uma hora de duração, Maxita constrói essa aproximação por meio de entrevistas e de imagens registradas tanto em áreas afetadas por desastres ambientais quanto em territórios sagrados dos yanomami. Entre os momentos mais impactantes estão os closes de Davi Kopenawa durante rituais xamânicos, em registros de grande intimidade.


O documentário não traz necessariamente novas informações sobre a realidade dos povos originários no Brasil. Sua força está em amplificar uma visão de mundo já conhecida, mas frequentemente ignorada: a de que floresta e ser humano não são entidades separadas, mas organismos profundamente conectados, que dependem mutuamente de proteção e cuidado.


Assim como outros documentários dedicados à questão indígena — Serra da Desordem, Martírio, Ex-Pajé, Segredos do Putumayo e A Queda do Céu, entre outros —, Maxita oferece voz e protagonismo aos alertas dos povos originários dirigidos ao “povo-mercadoria” e aos “comedores de terra”. A mensagem permanece a mesma: está cada vez mais difícil impedir a queda do céu.



As memórias assombradas da ditadura chilena


O cineasta chileno Ignacio Agüero (Notas para uma Película, 2022) é um dos grandes memorialistas do cinema latino-americano contemporâneo. Há décadas, retorna ao tema mais decisivo de sua existência e da história recente de seu país: a ditadura militar instaurada após o golpe de 1973, que derrubou o governo de Salvador Allende e levou Augusto Pinochet ao poder.


Em Cartas a Meus Pais Mortos (2025), Agüero parte de uma carta fictícia dirigida aos pais já falecidos para realizar um delicado acerto de contas com seu passado pessoal, familiar e nacional. O filme percorre histórias de exílio, perseguição, tortura e morte, mas também investiga aquilo que sobreviveu aos chamados “tempos mortos”.



A partir das imagens de sua residência atual — uma casa arborizada, repleta de objetos, gatos e memórias —, o diretor revisita lembranças ligadas às consequências da ditadura sobre sua família e sobre o Chile. O relato mistura acontecimentos reais e fabulações, em uma narrativa que se move livremente entre recordação e imaginação.


As imagens de arquivo nem sempre ilustram diretamente aquilo que está sendo narrado. Tampouco os depoimentos obedecem a uma lógica documental convencional. O que interessa a Agüero é construir um cinema da digressão, em que memórias, associações e pequenos acontecimentos cotidianos se entrelaçam.


O cineasta alcança algo raro: transformar lembranças traumáticas em um testemunho marcado pela serenidade e pelo afeto, sem jamais suavizar a violência dos fatos. Há lucidez e delicadeza na maneira como observa os escombros da história.


Tudo é narrado respeitando o ritmo das recordações e das imagens. Em um momento, acompanhamos um gato caminhando pelo telhado; em outro, uma tarefa doméstica banal; depois, o relato de um velho conhecido de seu pai. Aos poucos, o próprio Agüero também se revela diante da câmera.


Ao espectador cabe contemplar e absorver esse conjunto de imagens e testemunhos, ao mesmo tempo singelos e poderosos. São histórias públicas e íntimas de um homem que escolheu preservar o afeto sem abrir mão da lucidez. Porque, como o filme sugere silenciosamente, os fantasmas do passado nunca deixam de assombrar o futuro.


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