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  • Foto do escritorAmilton Pinheiro

Olhar de Cinema 2024: Travessias que transformam as permanências e mostram outros caminhos


Uma coisa interessantes a ser observada num trabalho de curadoria de um festival de cinema é a maneira como ela distribui os filmes nos dias de suas exibições. Geralmente, os curadores colocam no mesmo dia filmes que possam dialogar entre si, seja pela temática, pelas histórias, pelos personagens, pelos dispositivos narrativos, etc.


No sábado, 15, as duas mostram competitivas do Olhar de Cinema 2024, nacional e internacional, trouxeram filmes que se espelham entre si, neste caso, pelas mudanças geográficas que as personagens são submetidas no transcorrer das histórias contadas e pelas pessoas que irão cruzar seus caminhos e que ajudaram enxergar a vida de outras maneiras.


Foram exibidos dois filmes brasileiros da mostra competitiva nacional; Quem é Essa Mulher?, de Mariana Jaspe, e Greice, de Leonardo Mouramateus.


No seu primeiro longa da carreira, Mariana Jaspe realiza um documentário sobre a vida de duas mulheres negras separadas pelo tempo. A primeira médica negra formada no Brasil, Maria Odília Teixeira, em Salvador, e a historiadora negra Mayrara, uma baiana que será tocada e transformada pela descoberta da existência dessa mulher nas viagens que terá que fazer para recuperar a trajetória dessa médica e concluir seu mestrado.


O cineasta Leonardo Mouramateus, que hoje mora em Portugal, apresenta Greice, uma comédia farsesca e com pintadas de chanchada, que conta a história de uma jovem negra estudante de artes em Portugal, que tem que se virar entre faculdade e trabalho para sobreviver do outro lado do Atlântico, mas que termina se envolvendo num acidente dentro da universidade e perde seu visto de permanência, sendo obrigada a voltar para o Brasil, no caso, Fortaleza, no Ceará, até conseguir novamente seu visto para retornar à Lisboa e continuar sua vida lá.


Caminhos Cruzados (Crossing), de Levan Akin, cineasta sueco com ascendência georgiana, traz a história de três personagens: Lia (Mzia Arabuli), Achin (Lucas Kankava) e Evrin (Deniz Dumanl). No filme, eles terão suas vidas transformadas pelos encontros inesperados, depois que Lia, uma historiadora aposentada, que mora na Geórgia, decide, após a morte de sua irmã, procurar a filha dela, sua sobrinha, uma mulher trans, Tekla, que foi viver em Istambul. Ela empreenderá essa viagem ao lado de Achin, um jovem problemático e sem ocupação que quer sair do lar tóxico em que vive ao lado de seu irmão e da esposa dele.


Bons personagens desperdiçados em filme sem rigor


O ponto de partida para qualquer documentarista é ter nas mãos uma boa história, bons personagens, condição sine qua non para realizar no mínimo um bom filme. Foi o que encontrou Mariana Jaspe em Quem é Essa Mulher? ao se deparar com a trajetória de duas mulheres negras e baianas, de classes distintas, e separadas pelo tempo, no caso, quase 100 anos.

O filme é um road movie dos percursos que a historiadora Mayara Santos, a primeira da sua família a fazer faculdade, no caso mestrado em História, irá realizar pela Bahia para juntar documentos que regaste e refaça a trajetória pioneira da primeira negra a se formar em Medicina no país, Maria Odília Teixeira, negra e vinda de uma família mais abastada pelo lado paterno do pai branco. Duas mulheres negras que tiveram que se impor numa sociedade preconceituosa e sem oportunidades.


Boas histórias e boas personagens que são desperdiçadas no filme de Mariana Jaspe, que não potencializa nem a história de Mayara e muito menos de Odília. Isso acontece pela falta de foco e de rigor no registro dos deslocamentos de Mayara pelas cidades baianas à procura de documentos que comprovem o pioneirismo de Odília não somente como a primeira negra baiana formada em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, mas também como a primeira do país, o que a pesquisa de Mayara irá comprovar.


Os dispositivos utilizados no filme são insuficientes e soam algumas vezes como primários e convencionais, já que falta rigor nas escolhas do que se é registrado. A diretora não documenta satisfatoriamente a trajetória apagada pela História de Odília com fotos e materiais de arquivo para que o espectador sai conhecendo mais sobre a médica. E ao acompanhar os deslocamentos de Mayara pela Bahia, falta critério do que se registra, já que parte dessas escolhas são meros encontros que não dizem muito sobre o que se está querendo contar, ficando a sensação de um registro caseiro de Mayara que é pouco revelador sobre a trajetória e de quem foi Odília.


Um filme que soa como uma história infanto-juvenil farsesca bem realizada


Em Greice, de Leonardo Mouramateus, iremos acompanhar a trajetória da jovem negra Greice, vivida com frescor e competência pela atriz Amandyra, que foi realizar um sonho do outro lado do Atlântico; estudar artes, em Lisboa, em Portugal, trabalhar para poder se sustentar e aproveitar os doces momentos de sua juventude.

O diretor é hábil na maneira como utiliza os recursos técnicos do filme (fotografia, montagem, som, locações, etc) e como dirige seus atores, num tom realista e ao mesmo tempo farsesco e chanchadeiro, numa homenagem intuitiva ou não as chanchadas brasileiras. Há um humor que em alguns momentos resvala num escrachamento e e no descompromisso que o filme tem em tocar de forma adulta nos temáticas que o longa traz, entre elas: choque de culturas, mercado de trabalho para jovens em outro país, namoro de pessoas de classes diferentes, os preconceitos que brasileiros sofrem na Europa, o racismo lá e no Brasil.


O que o diretor quer é contar sua história de forma engraçada para que o espectador possa rir com as peripécias de Greice, uma jovem que não leva muito em consideração as consequências dos seus atos, tanto em solo português como numa Fortaleza com ares turísticos, o que ele consegue em parte. Há uma identificação por parte do espectador com essa jovem que gosta da vida e de se arrisca nela, mesmo que tome atitudes irresponsáveis que machucam os outros. Uma heroína as avessas.


Ao ter que deixar Lisboa – por ter cometido supostamente um crime na faculdade que estuda; ela é suspeita juntamente como namorado português de terem danificado uma obra de arte exposta nos corredores da instituição de ensino que estudam –, Greice tem que a oportunidade de fazer um balanço da sua vida até aquele momento. Essa travessia é a oportunidade de repensar a vida que leva em Lisboa, entre trabalho, estudo, diversão com as amigas e esse novo namorado, que por hora ela decide terminar.


É um filme que não precisa ser levado a sério pelos temas que coloca e que não se aprofunda, já que não é o intuito do diretor certamente. Tem essa leveza, uma ótima atriz num papel feito para ela, um humor de chanchada atualizada e os clichês usuais que o diretor não abre mão.


Alteridade de personagens e histórias que parecem cânticos


O diretor sueco Levan Akin, que tem ascendência georgiana, gosta de trabalhar nos seus filmes a questão de gênero, a sexualidade e os desejos dos seus personagens, o que ele traz novamente em Caminhos Cruzados (Crossing), que passou pelo Festival de Berlim desde ano na Mostra Panorama.


Uma professora aposentada, a ótima Mzia Arabuli, atravessa a fronteira entre Geórgia e Turquia para tentar localizar sua sobrinha que foi morar em Istambul, pelo que fica sabendo ao visitar um antigo aluno seu. A sobrinha tinha sido expulsa de casa depois que a família a rejeitou por ser uma trans. Nessa empreitada fronteiriça, Lia terá como companhia um jovem sem rumo, Achin, que mente para ela para poder acompanhá-la e finalmente poder chegar em Istambul para tentar viver uma nova vida.

Em solo turco, Lia e Achin irão cruzar com personagens que irão modificá-los no final dessa jornada intimista e humana em que as nossas contradições e limitações são evidenciadas. O encontro com Evrin, uma advogada trans que ajuda pessoas como ela numa frenética e impessoal Istambul.


O diretor acompanha seus personagens nesse road movie pelas ruas de Istambul, entre bares e hotéis baratos. Tudo é muito bem filmado, tudo é bem decupado, tudo é bem interpretado. Viramos íntimos nessa jornada entre esses seres tão antagônicos e de vivências tão díspares, mas ao mesmo tempo há algo que os aproxima; a necessidade do outro, da ajuda do outro, da compreensão do outro, nossos seres sociais.


A fotografia contrastante destaca uma Istambul solitária, quente, fria, frenética e ao mesmo tempo nostálgica. Há uma identificação completa com esses três personagens que o diretor habilmente filma enquanto vai despindo-os de suas fragilidades e contradições.


O som do barulho das ruas se deixa silenciar por uma música que serve como uma prece para a jornada incerta da vida daqueles personagens que iremos ter que deixar ao final da projeção do filme, como um cântico que emudece a existência para a pausa necessária que precisamos impor na travessia sem fim que temos que fazer diariamente.


O filme é profundo no tratamento dos temas que coloca; como a compreensão, o afeto, o convívio com as diferenças, com culturas distintas, com as jornadas de cada um, etc, enfim, com o que nos espelha e também com o que nos difere.

 

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