• Matheus Mans

Opinião: 'Blade Runner 2049' pode ser um novo clássico?


Você já parou para pensar no que faz um filme ser clássico? Boa bilheteria? Premiações? Imprensa elogiando? Apuro técnico? Divisor de águas num gênero cinematográfico? Nada disso. Clássicos nascem do elemento que não pode ser causado de maneira proposital e que surge de maneira natural: sentimento abstrato da sala de cinema. Isso mesmo: não é a lógica que indica se um filme ficará eternizado na memória da sétima arte, mas a sensação amorfa de prazer cinematográfico.

Veja exemplos. Lembra de A Bruxa? A trama ficou marcada pelos elogios rasgados da imprensa, pela boa leva de premiações e, principalmente, por iniciar o gênero do pós-terror. Ainda assim, o longa está longe de ser considerado um novo clássico absoluto. Enquanto isso, Blade Runner, o de 1982, desagradou tudo e todos logo que foi lançado. Ainda assim, depois de anos e uma nova edição, o filme foi alçado ao panteão das ficções científicas junto com Metropolis e 2001.

Não há lógica, não há raciocínio que transforme um filme em clássico da noite pro dia -- e olha que a indústria de cinema tenta fazer isso a todo o momento. O que o deixará marcado na história da sétima arte é o sentimento positivo que exala ao final da projeção. É quando acendem as luzes, despertam as pessoas do sonho e elas ficam sentadas, numa tentativa de entender o que aconteceu ali. Nesse ano, vi isso acontecer de forma instantânea com o ótimo It, a Coisa.

Agora, mais de um mês após seu lançamento, surge um questionamento cada vez mais e mais forte: e Blade Runner 2049? Será um novo clássico do cinema? Afinal, seu caminho está seguindo o do original: crítica dividida e fracasso nas bilheterias, mas com um apuro estético e técnico que deixa qualquer outro filme no chinelo. Ainda assim, volto a retomar a minha teoria: nada disso serve se a sua audiência não tiver sentido esse tal de sentimento abstrato da sala de cinema.

Eu, particularmente, não senti. Por isso mesmo, nem coloquei a menção à clássico na crítica aqui do Esquina. Ao final da projeção, senti um sentimento agradável de realização e satisfação com o que acabou de rolar na telona, mas sem a sensação arrebatadora de que o filme é um marco no cinema e, principalmente, em nossas vidas. E olha que o longa se esforça: tem uma história atualizada para nossos tempos, uma edição que conversa com o espectador e uma fotografia deslumbrante.

Ainda assim, acredito que Blade Runner 2049 tinha um grande fantasma nas costas que impediu que esse sentimento renasça nos cinemas. O filme clássico, de Ridley Scott, ficava batendo à porta a todo o momento e impedia a audiência de mergulhar de cabeça na trama com Ryan Gosling e Harrison Ford -- por melhor e mais impecável que ela seja. Aí você se pergunta: Blade Runner 2049 não será um novo clássico? Não ficará marcado em nossas mentes?

Obviamente, não sou eu que vou responder isso. O filme de Denis Villeneuve vai seguir um caminho muito mais difícil que It, a Coisa e seguir o sentimento que existia com a trama de 30 anos atrás: o tempo. Com o passar dos anos -- e das décadas -- o público vai digerir a história e mais pessoas vão entrar em contato com a película, conforme a produção é mais distribuída no mundo. A partir daí, quem sabe, esse sentimento abstrato da sala de cinema surja com força e ecoe no mundo todo.

Por enquanto, a resposta à pergunta do título é o silêncio. E, novamente, é um silêncio que deverá perdurar por muitos anos.

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