• Michelly Cruz

‘Orgulho e Paixão’ mistura universos de Jane Austen em nova novela das seis


Durante o primeiro episódio de Orgulho e Paixão, que estreou nesta terça, 20, substituindo Tempo de Amar no horário das seis, é possível captar inúmeras referências das obras da escritora britânica Jane Austen, nas quais a nova novela da Globo é “livremente inspirada”.

A base da novela, como o próprio nome já indica, é montada principalmente sobre a narrativa de Orgulho e Preconceito, tendo como personagens principais Elisabeta Benedito e Darcy, interpretados por Nathália Dill e Thiago Lacerda. Assim como no livro, o casal abre a história já se desencontrando, trilhando um caminho turbulento que trafega em meio às diferenças sociais, interferências externas e as divergências de personalidade dos dois - ingredientes comumente vistos nos livros de Austen.

A história gira, em grande parte, em torno da personagem de Vera Holtz, Ofélia Benedito, e seu desejo de arranjar bons casamentos para as suas cinco filhas. A atriz incorpora as loucuras e exageros da matriarca do livro, sendo balanceada pela ponderação de seu marido Felisberto, interpretado por Tato Gabus Mendes.

Em Orgulho e Preconceito, aliás, três das filhas se destacam: Elizabeth, a audaciosa, Jane, “a bela, recatada e do lar”, e Lydia, a inconsequente. Na novela, no entanto, o autor Marcos Bernstein optou inteligentemente por não anular as outras duas irmãs, talvez até pela necessidade de personagens que movimentassem o roteiro. Para compor as personagens de Mariana e Cecília, então, ele resgatou as protagonistas de outros dois romances da autora, Razão e Sensibilidade e Abadia de Northanger, respectivamente.

Ainda na formação do núcleo principal, o autor utiliza mais dois romances de escritora. Ema, a mimada e romântica melhor amiga de Elisabeta, interpretada no folhetim por Agatha Moreira, é baseada no livro homônimo, publicado em 1815 e estrelado por Gwyneth Paltrow em 1996. Já a vilã Susana, vivida por Alessandra Negrini, é inspirada no romance Lady Susan, no qual vemos uma protagonista que difere das heroínas e mocinhas criadas por Austen.

Qual a sensação de assistir à estreia? Foi um episódio leve e divertido, que pode agradar quem é fã da escritora ao mesmo tempo que pode desgostar àqueles que se apeguem demais aos livros. Foi interessante perceber como a transição para a TV foi feita, especialmente no que tange aos detalhes necessários para uma maior aceitação do público, especialmente quando falamos de obras previamente já tão conhecidas. Os campos ingleses que servem de cenário à boa parte da história, por exemplo, deram lugar às plantações da fictícia Vale do Café, e cenários e nomes ingleses foram trocados ou alterados para algo mais apropriado ao português.

Orgulho e Preconceito já havia sido ganho outras adaptações, como a versão cinematográfica dirigida por Joe Wrigth em 2005, na qual Keira Knightley e Matthew Macfadyen tinham tanta química em tela que fizeram dos protagonistas uma versão muito fiel ao que imaginamos ao ler a história. No entanto, ao saber que o mais conhecido livro de Austen, numa inspiração que beira o plágio, daria origem à novela Orgulho e Paixão, o temor foi inevitável.

Afinal, numa adaptação de duas horas, como a de Wright, é muito mais fácil manter a qualidade e fazer alterações pontuais, que simplesmente se encaixam melhor para o formato do cinema. Já quando falamos de uma novela, é impossível não imaginar como o autor irá conduzir o enredo através de episódios, uma vez que ele terá de se prolongar e aprofundar em personagens e questões que vão muito além do que ocorre entre os protagonistas Lizzie e Darcy.

A mentalidade muito evoluída com a qual Austen tornou Elizabeth Bennet um ícone feminista que perdura há mais de 200 anos, continua inegavelmente presente nas atitudes atrevidas e falas ácidas da Elisabeta de Nathália Dill, assim como o Darcy de Lacerda, mantém o orgulho e introversão característicos de seu personagem, não deixando a desejar neste início.

No entanto, ao diretor Fred Mayrink, é aconselhável ter cautela, pois, se ao mesmo tempo é inovador trazer as obras de Austen para este formato e num cenário brasileiro, misturar universos numa única trama, transpondo clássicos deste tamanho com um público que não hesitará em fazer comparações ao vê-los na TV, pode tanto resultar em absoluto sucesso como em estrondoso fracasso.

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