• Matheus Mans

Pai e filha criam tirinhas de dinossauro adolescente


Marcel Ibaldo é quadrinhista experiente, com mais de 50 HQs publicadas e vencedor do 29º Troféu HQMIX com The Hype. Marcelli Ibaldo, enquanto isso, é filha de Marcel, tem só dez anos e é amante de rock'n roll e, claro, de quadrinhos. Dessa parceria de pai e filha nasceu as tirinhas Tê Rex, que já contam com mais de 2 mil seguidores no Facebook e, agora, estão em financiamento coletivo no Catarse pra que a dupla publique o primeiro livro compilando as histórias.

"A Tê Rex transcende qualquer experiência que eu tive anteriormente com quadrinhos", afirma Marcel em entrevista ao Esquina. De fato, as tirinhas da tiranossauro nerd são bem diferentes de outros trabalhos do gaúcho da cidade de Quaraí, que focava em histórias mais adultas. Já com Tê Rex, Marcel e Marcelli contam histórias de uma jovem tiranossauro -- a Teresa ou, simplesmente, Tê Rex -- que não se encaixa no mundo e enfrenta de provocações da sociedade ao seu redor, indo de assuntos como bullying, passando pela incompreensão de nerds e indo até tiras de pegada feminista.

"Muito da Tê Rex existir se deve ao que a Marcelli me contava sobre o que ela ouvia das pessoas em relação aos interesses dela", contextualiza o quadrinhista gaúcho, que é o responsável por roteirizar as tirinhas, enquanto a filha fica responsável por desenho, arte-final e cores. É uma tirinha que, como as melhores do gênero, vai além do humor e busca criar discussões a partir de seus desenhos e personagens. "É um desafio constante", diz Marcel.

Abaixo, então, é possível conferir a entrevista completa do Esquina com Marcel e Marcelli. E novamente: não deixe de conhecer e, se possível, apoiar o projeto da dupla no Catarse.

Esquina da Cultura: Primeiro, me conte um pouco sobre a concepção do projeto. Como nasceu? Como foi o desenvolvimento?

Marcel Ibaldo: Eu já publico HQs há mais tempo do que lembro, e em casa a Marcelli tem visto quadrinhos e livros por todo lado desde que nasceu. Logo já tentava criar suas histórias quando recém tinha sido alfabetizada, além de ficar sempre procurando mais informações sobre dinossauros. Então, acho que foi o caminho natural eu decidir iniciar uma parceria com ela tanto pra incentivar no aprendizado do quadrinhismo, quanto por considerar a arte dela muito promissora pra idade. Depois de muitos esboços e ideias surgiu a Tê Rex, que a gente cria rotineiramente em meio a conversas sobre nerdismo e situações diárias que a gente vive ou ouve e que vai ficando cada vez mais pessoal a cada nova tira.

Esquina: Tenho falado muito com quadrinistas com projetos no Catarse e a maioria aponta que o financiamento coletivo é o futuro do quadrinho independente no Brasil. Você concorda? Por qual motivo escolheu esse meio?

Marcel: Não vou ousar uma afirmação dessas por enquanto, mas que é uma ferramenta que tem impulsionado grandemente a cena, com certeza é. Eu lancei em parceria com o Max Andrade a The Hype através de financiamento coletivo, e com ela vencemos o 29o Troféu HQMIX, então pra mim o retrospecto na utilização da plataforma é muito positivo. Além disso, eu curto muito a possibilidade de o meu trabalho chegar a pessoas de todos os cantos do país, e considero incrível a parte de autografar material pros apoiadores que muitas vezes são pessoas que não conheço e talvez nunca venha a conhecer pessoalmente, mas esse estreitamento das distâncias por intermédio do financiamento coletivo permite essa aproximação. Esse foi o principal motivo pra eu ter escolhido o financiamento coletivo pra lançar o livro da Tê Rex.

Esquina: O seu projeto tem uma curiosidade à parte que é a participação da sua filha, de 10 anos, na concepção da história. Como foi isso? Qual a opinião dela sobre o atual estágio do projeto? Ela pensa em seguir a carreira?

Marcel: ​A gente é amigo demais, cara. Todo dia estamos conversando sobre quadrinhos, livros, fazendo um som (a Marcelli toca bateria, teclado e canta, e eu toco violão, teclado e canto também), assistimos filmes, seriados e tal, e por isso acredito que seria até inusitado se a gente não criasse algo em parceria. Com toda a dedicação e interesse que ela sempre teve por criar quadrinhos (as primeiras HQs dela são de quando tinha 6 anos) a Tê Rex é só o resultado desses aspectos todos e uma forma de a gente passar mais tempo juntos.

Marcelli Ibaldo:​ Me impressiona bastante ter chegado a esse ponto porque esse projeto era no começo um incentivo pra eu começar a desenhar. Nunca imaginei que algo que era a nossa diversão aqui em casa fosse se tornar algo assim. Esse é um projeto que vai fazer parte da minha pra sempre e não vai acabar na minha infância. Eu planejo seguir em frente com os quadrinhos.

Esquina: Marcel, você já tem uma carreira consolidada no campo das artes -- trabalhou com curtas, com música -- e já é um quadrinista experiente. Qual o "sabor" desse projeto comparado com as suas outras obras?

Marcel: A Tê Rex transcende qualquer experiência que eu tive anteriormente com quadrinhos. Trabalhar com a pessoa que mais amo na face do planeta na forma de arte que tá no meu sangue desde décadas atrás adiciona camadas de diversão e um sentimento de realização completamente novo pra algo que já é maravilhoso, que é produzir HQs. É um passeio pela pré-História, mas ao mesmo tempo é uma forma de ver a minha filha amadurecimento ideias e interesses pela arte ao mesmo tempo em que eu aprendo sempre que uma nova tira é criada.

Esquina: A história envolve alguns elementos bem interessantes e que trazem questionamentos, como estranhamento dentro do ambiente social e a sensação de ser esquisita. Como foi a elaboração desses temas? Como chegar neles de modo sutil, sem afetar demais o texto das tiras?

Marcel: Tem sido um desafio constante. Poderia dizer que encontrar uma forma de não ser panfletário é a minha busca recorrente em cada novo roteiro da série e uma grande parte do que eu curto nela é isso. Esse tipo de questão existe nas tiras desde o conceito inicial, porque muito de a Tê Rex existir se deve ao que a Marcelli me contava sobre o que ela ouvia das pessoas em relação aos interesses dela (especialmente por quadrinhos, livros, rock’n roll e tocar bateria). Ao mesmo tempo em que eu tentava explicar pra ela de que modo lidar com isso, surgiu a Teresa, que vive situações semelhantes a algumas que a Marcelli viveu, porém reagindo de modo completamente diferente, e inspirando a Marcelli a superar preconceitos que se ela desse ouvidos não seria uma promissora quadrinhista e instrumentista.

Esquina: Quais suas expectativas com relação ao projeto? O que espera daqui pra frente?

Marcel: No presente momento minha principal expectativa é que os leitores apoiem o projeto e o livro seja financiado. Vai ser o primeiro livro da Marcelli (antes ela participou de fanzines) e acompanhar a concretização desse sonho dela faz dessa batalha do Catarse algo ainda mais importante pra mim. Espero muito que a série continue dialogando com a realidade das pessoas, quer elas compartilhem dos mesmos interesses nerds que nós ou não, e que as tiras sejam uma forma de nossas ideias alcançarem essas pessoas enquanto publicarmos elas (o que espero que seja pra sempre).

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