• Pedro Balciunas

Sem Ponto: Diários da quarentena (pequeno burguesa) – Dia 22
















6 de abril de 2020, segunda-feira.

No home-office, todo dia é segunda-feira. Abri o calendário para saber há quantas estou em casa. Vinte e duas. Não completamente trancado, é verdade, ainda preciso ir ao mercado vez ou outra. Gastei quase oitenta reais em umas saladas prontas, um ketchup gourmet, um pacote de pão sueco para comer com antepastos igualmente industrializados e café. Café sem frescura, foi a coisa mais barata da compra, menos de dez reais - mas será feito na minha cafeteira tipo italiana, frescurinha que adoro e que ganhei de presente há uns dois aniversários, quando ir ao mercado não era um evento.

Pausa para: uma formiga gigante me dispersou, tive que atirá-la pela janela. Ultimamente tenho prestado atenção em tudo e me nego a matar um bichinho que só vai me morder por instinto e não por maldade. Apoiei a giganta de asas no chinelo e a joguei na noite, coisa que não posso fazer comigo mesmo. Até os formigões possuem limitações de segurança e não podem sair 100% tranquilos. Se eles correm o risco de levar uma chinelada eu corro o risco de ser assaltado ou de levar uma lampadada na cabeça, ou seja, o perigo é diferente, mas não diferencia humanos e formigões.

De volta ao passeio no mercado, também me dispersou um homem fazendo vídeo-chamada na área das flores. Com a respiração presa, aproveitei para lavar as mãos na pia escondida entre vasos e pétalas e ouvi a voz de mulher saindo da tela do celular.

“Que flor tem aí?”

“Tem essa aqui, amarela, mas tem uma outra, olha só” e lá foi o homem mostrar o outro vaso. Enquanto esfregava as mãos - e entre os dedos, base do polegar e baixo das unhas - olhei e vi a criatura agachada ao meu lado, camiseta azul florida e bermuda quadriculada marrom. Para complementar, um chapéu bege arrematava o visual, combinação perfeita para comprar flores em um supermercado às sete horas da noite. O passeio de mercado sempre foi uma instituição em muitas famílias, mas agora é o privilégio máximo permitido, por isso o chapéu.

Vendo o homem assim tão arrumado, foi inevitável não lembrar da entrevista do dono de um escritório de advocacia na semana retrasada - pelas minhas contas no dia 8 da quarentena. Se pra ele os advogados em home-office têm que estar “apresentáveis”, deduzo que pra ir ao mercado é provável que devessem usar, no mínimo, o terno completo. Devessem, pois provavelmente os advogados estão em casa pedindo suas compras e comidas pelo aplicativo e espremendo cravos na tela do computador enquanto esperam o motoboy chegar. Eles que lutem para fazer minhas compras.

E eu que lute para manter o foco. Comecei falando de mercado e da necessidade crucial de comprar flores e terminei em advogados e suas normas de etiqueta. Daria um conto surrealista ou teatro do absurdo. Talvez seja mais uma crônica. A ver nos próximos dias.

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