• Bárbara Zago

'Fragmentado' renova difícil discussão psicológica


Novo filme em cartaz do diretor M. Night Shyamalan, Fragmentado apresenta um caso intrigante de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), ou, como era conhecido antigamente, Transtorno de Múltiplas Personalidades. Só a atuação de James McAvoy no papel principal já renderia uma crítica por completa, por ser seu melhor trabalho até então. Mas o objetivo deste texto é ir além e entender um pouco mais desse transtorno e como o filme aborda essa questão.

Fragmentado conta a história de um rapaz com TDI que possui 24 personalidades, todas com as suas particularidades e bem definidas (ainda que apenas parte delas seja exibida no longa). A narrativa se desenvolve a partir do momento em que uma das personalidades de Kevin sequestra três adolescentes e as mantêm presas no local em que vive. Durante o filme, elas são as únicas a presenciar a troca de personalidades, exceto por Karen, sua psiquiatra.

De maneira mais simples possível, TDI consiste em uma alteração psicopatológica em que um indivíduo, normalmente após sofrer um grande trauma durante seu desenvolvimento, tem sua consciência dissociada e acaba, como mecanismo de defesa, criando personalidades acessórias para lidar com determinadas situações. No filme, a história traz detalhes sobre esse sofrimento de maneira enigmática, deixando pistas que serão reveladas conforme o andamento da trama.

Não é surpresa que Hollywood não apresente um transtorno psicológico como ele de fato é. Justamente por ser um filme de entretenimento, e não um documentário, vale apontar metáforas interessantes usadas pelo diretor para tratar da doença ao invés de criticá-lo por ser fantasioso.

Em grande parte do filme é usada uma linguagem simples, e não médica, para fazer referência ao TDI. A psiquiatra inclusive utiliza termos como "personalidades que vieram à luz" durante suas conversas com o protagonista. Talvez, a melhor maneira -- e mais sutil -- que o filme represente isso seja no contraste entre claro e escuro. Existe um momento em particular que uma das personalidades de Kevin, a Fera, destrói inúmeras lâmpadas, e conforme isso acontece, vai ficando cada vez mais poderoso. A cena, nada mais é, que um retrato de uma personalidade tomando o espaço das outras.

A título de curiosidade, a desconfiança retratada por outros médicos quando a psiquiatra fala com convicção a respeito desse transtorno é extremamente válida nos dias de hoje. Apesar de ter sido comprovada a existência de outros casos com TDI, e o cinema até abordar uma delas com o clássico As 3 Máscaras de Eva, ainda existe certo receio por parte da medicina. O transtorno só se tornou um diagnóstico oficial em 1980.

Ainda que o filme não seja baseado em fatos reais, ele foi inspirado na história verídica de um homem chamado Billy Minnigan. O que o diferencia entre tantos outros casos de TDI é o fato de ter sido o primeiro caso que não resultou em uma sentença criminal/prisão pois foi comprovado que, na realidade, o responsável pelos crimes não era Billy, e sim uma de suas personalidades. A retomada do assunto através do filme filme acaba por nos proporcionar um questionamento: até que ponto um paciente com transtornos mentais pode ser julgado pelos seus atos?