• Matheus Mans

'Não é sadio ser apenas o autor que choca', diz Raphael Montes


O carioca Raphael Montes é um caso raro da literatura brasileira. Interessado em livros desde pequeno, escreveu o chocante Suicidas na adolescência e, logo aos 16 anos, conseguiu o seu espaço no mercado editorial. Impressionou pela qualidade e pela maturidade de seu estilo e, desde então, para arrepio dos literários mais conservadores, não parou mais.

Hoje, aos 26 anos, Montes se tornou um autor consagrado em seu gênero. Com estilo de escrita visceral, ele impressiona, seja pelo inesquecível Dias Perfeitos ou, mais recentemente, por seu perturbador Jantar Secreto. É um autor jovem, ousado e criativo, que já tem suas as obras traduzidas para o inglês, espanhol e até polonês.

O Esquina falou com Raphael por telefone na última semana para saber mais sobre os seus planos, sua visão sobre o mercado editorial brasileiro e sobre seus medos, se os tiver. Abaixo, os melhores trechos da entrevista:

Você é um autor jovem e que conseguiu um grande espaço na mídia e no mercado editorial. Qual é o segredo?

Não acho que existe um segredo, tampouco uma resposta. No meu caso, o que fiz foi apenas escrever histórias que me agradam, que me comovem. Nunca fui um daqueles autores que pensam no mercado e escrevem histórias para fazer sucesso. Num primeiro momento, meu único objetivo é me satisfazer. Depois, claro, fico muito feliz que os leitores também fiquem satisfeitos. Uma dica que dou a todo escritor jovem é que tenha paciência. A pressa não adianta para nada.

Você não teve pressa em publicar seu primeiro livro? Afinal, você tinha ‘Suicidas’ nas mãos.

Logo no início da minha carreira, mostrei Suicidas para várias editoras e todas negaram a publicação. Fui paciente e esperei. Nesse meio tempo, comecei a escrever Dias Perfeitos. Até que, um dia, por causa de um prêmio literário, a Benvirá se interessou e publicou o Suicidas. Logo, fui bastante paciente, sim.

Falando no mercado editorial, como ele está hoje? Passou a turbulência?

A turbulência ainda está por aí. O mercado está ruim e as editoras estão fechadas aos novos autores. É um momento de mercado. O dinheiro está curto, então você não arrisca comprar livros de pessoas que você ainda não conhece. Se você vê um livro do Ian McEwan na livraria, você compra por gostar e conhecer a literatura dele. Você não faz isso se tem o dinheiro contado e não sabe quem escreveu aquele livro, se vai gostar ou não. Por isso, é muito difícil encontrar editoras que se arriscam com novos autores neste momento do país.

E isso faz com que os autores nacionais tenham mais dificuldade em emplacar livros no mercado editorial.

Sim, mas as editoras também descobriram a maravilha que é publicar um autor nacional. É mais fácil levar um escritor nacional para um evento, ele fala a mesma língua do seu público, tem mais facilidade de dar entrevista. E também as editoras têm percebido que há uma produção nacional de qualidade sendo feita, sem dever nada a produção estrangeira. É um equilíbrio sutil: o mercado está fechado, mas as editoras também perceberam como é bom ter autores nacionais em seu catálogo. E isso é bom para todos.

A literatura policial continua marginalizada no País? Ou melhorou de alguns anos pra cá?

A literatura policial, como qualquer literatura de gênero, é marginalizada no Brasil e em todo o mundo. Mas não é uma literatura menor. Até Jorge Luis Borges escreveu literatura policial. Mas, por exemplo, sei que muitos colegas torcem o nariz para o meu trabalho sem nunca terem lido, apenas pelo fato de ser literatura de gênero. É um preconceito bobo. O mínimo que você tem que fazer é saber sobre o que você está falando.

Você já tentou se afastar do horror e do policial e experimentar outros gêneros?

Tenho muita vontade, mas nunca tive uma ideia. Não é sadio ser conhecido apenas como um autor que sempre choca. Afinal, fico com a responsabilidade de chocar novamente em todas as minhas obras - e não quero isso. Quero ser conhecido como o escritor que conta boas histórias, que diverte. Mas, por enquanto, sei que todos os meus livros têm elementos policialescos ou de terror, com cenas que acabam chocando alguns leitores.

Mas você gosta de chocar.

Gosto. Eu gosto de desafiar o leitor. Tem muita gente que fala que não gosta de história que assusta, que dá medo, mas que consegue ler meu livro. Eu gosto de contar uma história para que o leitor fique preso, ansioso pelo final, um livro que não largue de sua cabeça mesmo quando o leitor fecha as páginas e vai fazer outra coisa. Por exemplo, muita gente pensa em Jantar Secreto quando vai comer um bife no almoço. Enfim, busco fazer um misto de humor negro, suspense e horror, além de discutir temas mais profundos por trás da trama.

Queria ver Raphael Montes falando de romance.

Tenho muita dificuldade de falar sobre amor. Confesso. Eu treinei meu olhar para as tramas policiais, não para as histórias românticas. Minha bagagem cultural é quase inteira de histórias policiais. E um escritor é um reflexo de suas bagagens.

E quais seus projetos futuros?

Se eu tivesse essa resposta, estaria muito feliz. Demorei mais de três anos para concluir Jantar Secreto. Foram muitas dificuldades, quase desisti do livro. E agora estou entrando em um período sabático. Não estou escrevendo nenhum livro no momento. Ainda não encontrei um elemento que diferencia a história que quero contar das demais que já fiz, como penso que consegui até agora. Mas eu não estou parado. Estou fazendo algumas coisas pra televisão, para o cinema. Estou me arriscando em outras áreas, mas agora preciso de um descanso. Não vou parar de fazer livros. É que ainda não encontrei o livro ideal para ser o próximo.

#RaphaelMontes #LiteraturaPolicial #Entrevista #EntreLinhas