Buscar
  • Matheus Mans

Há 80 anos, o Brasil se despedia de Noel Rosa


Lá pelos idos de 1937, o médico carioca Graça Melo indicou que o compositor e poeta Noel Rosa deixasse o samba, o morro e o violão de lado por algum tempo e fosse se tratar de uma tuberculose que o afetava gravemente. Noel partiu para Belo Horizonte, mas uma depressão que sofria na época não permitiu tratamento adequado. Ele continuou bebendo, fumando e saindo no sereno da madrugada. Não deu outra: há exatos 80 anos, no dia 4 de maio de 1937, Noel morreu aos 26 anos.

Apesar da pouca idade e da tragédia que acompanhou a sua morte, o carioca, nascido no bairro boêmio da Vila Isabel, deixou uma obra colossal: são mais de 250 músicas que relatam o cotidiano da cidade maravilhosa e do samba, como os clássicos Com que Roupa?, Último Desejo e Feitiço da Vila. São crônicas, relatos, histórias do morro e da vida boêmia. Afinal, mesmo não tendo nascido no morro, mas foi lá que Noel se encontrou. E o morro, é claro, encontrou Noel.

“Noel revolucionou a poética do samba e da nossa música popular como um todo”, afirma o professor em cultura popular, Fernando Pereira, em entrevista ao Esquina. “Ele levou o samba dos morros cariocas para o asfalto do centro do Rio de Janeiro. Ouso dizer que Noel, sem nunca ter pretendido mostrar-se modernista, adotava em suas canções elementos que o identificavam claramente com o movimento de 1922.”

Além do poeta e cronista, porém, Noel também foi um sofredor. Dono de uma má formação no queixo, causada por conta de dificuldades no parto, o carioca sofria por conta de sua aparência e nunca obteve sucesso em sua vida familiar e amorosa. Sobre sua família, a decepção aconteceu por conta do caminho que tomou em sua carreira. Ao invés de continuar na faculdade de medicina, onde ingressou em 1931, ele escolheu as ruas, os bares e o violão.

Já nos assuntos do coração, o rapaz não escapou de uma paixão avassaladora. Em 1934, Noel casou com uma moça da alta sociedade carioca, Lindaura. Tinha carinho e afeto, mas nada além disso. Sua grande paixão era a prostituta Juraci Correia de Araújo, a Cici. Foi um amor avassalador para os dois e que acabou em separação: por causa de ciúmes de Noel, ela se distanciou. Ele, então, entrou em depressão.

Este sofrimento também é elemento presente nas composições do poeta da Vila. Algumas de suas músicas exalam todos os problemas que ele passou, como Último Desejo e Dama do Cabaré. “A obra de Noel pode ser dividida em dois segmentos: o amargo, o pessimista, o que sofre por amor e que é nitidamente autobiográfico; e o alegre e otimista, com crônicas do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro e seus fatos pitorescos”, explica o professor Fernando Pereira.

Até amanhã. Nos 80 anos de sua morte, a obra de Noel permanece mais viva do que nunca. Mesmo com alguns temas datados e outros até mesmo taxados de politicamente incorretos, como Conversa de Botequim e Mulher Indigesta, o seu legado permanece. Afinal, Noel não foi apenas abraçado pelo morro. Noel foi abraçado por todos que apreciam a boa música brasileira.

“A música popular brasileira se encontra em um momento de pobreza, pelo menos a que repercute na mídia”, diz Fernando. “Mas quando vemos cantoras e cantores da nova geração entoando Noel, como Aline Calixto, Diogo Nogueira e Fabiana Cozza, dá uma certa sensação de luz no fim do túnel. O tempo não foi injusto com o Noel. Injustas são a mídia e a memória do brasileiro.”