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  • Foto do escritorAmilton Pinheiro

Prestes a completar 50 anos de carreira, cantora Amelinha lança novo disco


Quem conhece um pouco do início da carreira da cantora e compositora Amelinha, que fez shows neste final de semana no teatro do Sesc Belenzinho, em São Paulo, pode até intuir de maneira apressada, e diria até equivocada, que ela começou meio que sem querer, de qualquer jeito.


Mas, por trás de uma certa indecisão de início de carreira, Amelinha sabia muito bem o que a impedia de lançar-se profissionalmente. Isso aconteceu em 1977, com o seu primeiro disco Flor de Paisagem, que foi produzido pelo amigo e conterrâneo, Raimundo Fagner -- inclusive, o cantor e compositor fez algumas canções do disco e escolheu com ela o repertório e a apresentou ao produtor musical e artístico da gravadora CBS, na época, Jairo Pires, que aceitou de prontidão contratá-la (depois contamos o resto desta história e porque ela tomou a decisão de começar uma carreira profissionalmente em 1977, mas já tinha uma estrada na música fazendo shows ao lado de músicos e dando palhinhas nos shows do amigo Fagner em São Paulo, cidade que foi morar).


Amelinha, que já tinha formado uma banda na sua cidade natal em Fortaleza, na época do colégio, e quando foi morar em São Paulo, aos 20 anos, para fazer o curso preparatório de Comunicação na Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), mas nunca fez faculdade, desistiu para seguir a carreira de cantora. Mas, em São Paulo, ela participou de alguns shows, fez uma banda que acabou logo, e começou a circular nos shows universitários e nas faculdades que aconteciam as dezenas no início dos anos 1970.


Foi nessa época que passou a ter contato novamente com os cantores cearenses, que estavam tentando a sorte no eixo Rio-São Paulo, como Ednardo, Fagner, Belchior, Rodger Rogério, Téti, Nilo Fausto, entre outros, amigos que já conhecia do mítico Bar do Anísio, um bar a beira mar em Fortaleza, que funcionava desde os anos 1960, e que reunia aspirantes a cantores, compositores, jornalistas, historiadores, filósofos e todo mundo que queria mudar o País pela arte, mergulhado numa ditadura infame e assassina, no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970.


Em 1974, Amelinha participou do primeiro disco do amigo Ednardo, O Romance do Pavão Mysteriozo, cantava nos shows universitários e nas apresentações de Fagner. O próprio Fagner que lhe apresentou em 1975 ao poetinha Vinicius de Moraes e Toquinho, que na época faziam shows por todo o país e na América Latina ao lado de uma cantora.

Maravilhado com a presença física e a voz cristalina da aspirante a cantora, Vinicius não demorou a convidá-la para se apresentar com ele e Toquinho nos shows que iam fazer em Punta Del Leste, no Uruguai, em 1975, o que Amelinha aceitou mesmo com reservas.


As apresentações foram um sucesso, Amelinha chegava a cantar oito músicas dentro do show de Vinicius de Moraes e Toquinho, inclusive uma em especial que o público aplaudia em cena aberta: A Gia, uma música do folclórico cearense que a própria Amelinha adaptou. “Quando a Gia canta/Na beira da lago/É sinal de chuva/Ah! meu Deus que coisa boa/Foi foi foi não foi/Foi foi foi não foi”.


De volta ao Brasil, a São Paulo, Amelinha continuava se apresentando ao lado de Fagner, cantando duas, três, músicas dentro do show dele. Chegou o momento que Fagner, vendo que a cantora estava pronta há muito tempo para se lançar profissionalmente, deu um ultimato a ela, disse: “Você não canta mais nos meus shows”, Amelinha teria respondido: “Mas então, não me convide mais, você quem me chama”. Fagner teria replicado: “A partir de hoje, você vai procurar uma gravadora, escolher o repertório e fazer seu disco”. Amelinha retrucou: “Não fiz isso até hoje porque não tenho um repertório para cantar, assim que tiver faço o meu disco” (Essa é uma das histórias que ela lembra nessa entrevista que deu ao Esquina via áudios WhatsAPP. A reportagem fez algumas perguntas, que ela não respondeu, como vocês verão abaixo, mas respondeu-as da maneira dela e de forma geral, ouça os áudios).


Um repertório para chamar de seu


Voltando ao resto da história iniciada no início dessa matéria, a cantora não tomava a decisão porque não se sentia a vontade em gravar um disco sem ter um repertório que fosse seu, pensado para ela, para o timbre de sua voz, para sua persona artística, que lembrava, nas palavras do poetinha e amigo, Vinicius de Moraes’, um bichinho brejeiro.


O disco Flor da Paisagem, gestado pelo amigo Fagner, que produziu-o, teve uma de suas composições feita numa das casas em que morou em São Paulo, na rua Capote Valente, como Amelinha lembra na entrevista abaixo: “(…) A música Flor de Paisagem, foi feita dentro da minha casa. Lembro que um dia escutei o Robertinho do Recife fazendo a melodia dessa canção, estava no meu quarto, que depois receberia a letra de Fausto Nilo, que um dia, usando sua lapiseira de arquiteto, pediu um pedaço de papel para fazer a letra toda da música. Isso foi muito mágico”, conta.


Outros repertórios e músicas pensadas e feitas exclusivamente para Amelinha gravar viriam nos verões futuros, como Frevo Mulher, título do seu segundo disco que vendeu mais um milhão de cópias e a tornou conhecida e festejada no Brasil inteiro.

Nesse disco além da música-título, tem participações de Dominguinhos e Elba Ramalho e foi produzido por Zé Ramalho, não somente autor de Frevo Mulher, como também casou-se com ela, e seria pai dos seus dois filhos, João Ramalho, músico multimídia e Maria Maria, e virou seu empresário na melhor fase de sua carreira.


Uma carreira respeitando o seu tempo de entendimento


Amelinha conheceu a fama e o sucesso estrondoso, mas não se deixou contaminar pelo “ouro de tolo’, como mesmo ela conta na entrevista, ao dizer que não queria deixar seus filhos sendo cuidados num internato, não ia atrás de nada para impulsionar sua carreira, respeitava seu lado reservado, não tímido. “As coisas aconteciam naturalmente”, explica.


O sucesso estrondoso seria impulsionado pelo enorme sucesso do segundo disco, Frevo Mulher, e de sua participação no Festival MPB Shell 80, quando a música Foi Deus Que Fez Você, de autoria do paraibano Luiz Ramalho, primo do Zé Ramalho, ficou em segundo lugar e na memória afetiva de todo o Brasil. Atrelada a essa música, viria seu outro disco Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor (música de Zé Ramalho e versos de Octacílio Batista), que terminaria entrando na abertura minissérie de grande audiência da rede Globo Lampião e Maria Bonita, de 1982. A voz e a presença física de Amelinha tomou conta de todo país e deixaria todos encantados e dominados pela sua voz cristalina e forte.

Mas ela tomou a decisão de ir morar em Fortaleza, cuidar dos filhos e conciliar a carreira e seu tempo respeitando sua intuição e sua vida pessoal. Foi assim que ela chegou a quase cinco décadas de carreira e aos 73 anos se sente realizada e entusiasmada não somente com a vida que teve, mas com a carreira, está lançando um novo disco Todo Mundo Vai Saber, 2023, com um repertório que vai das músicas que a fizeram ser quem é, canções de novos compositores e uma levada de blues e jazz. “Acho a vida fascinante, Amo e agradeço a todos que têm participado [da minha carreira e vida]”, encerra a conversa, pois precisa voltar aos ensaios dos três shows que fará em São Paulo.


Confira a entrevista completa com Amelinha abaixo.

No entanto, desta vez, um formato diferente: como a cantora não respondeu individualmente cada pergunta, os áudios com as respostas estão no final das perguntas.


Esquina da Cultura: Amelinha, fale um pouco desse show em que você passeia por antigos sucessos, cantando compositores que fizeram parte da sua trajetória artística, como Belchior, Fagner, Zé Ramalho, o Pessoal do Ceará, como Ednardo e Fausto Nilo, além de algumas músicas do seu mais recente trabalho de estúdio Todo Mundo Vai Saber, de 2023, em que também apresenta dois compositores do Ceará, Caio Silvio e Ricardo Alcântara, e mostra novas facetas de interprete cantando jazz e blues…Por que tanto tempo para gravar um disco de estúdio?


Esquina: Este novo disco Todo Mundo Vai Saber, foi gravado há algum tempo, mas permaneceu a sete chaves. Por que a demora para lançá-lo? O que representa este novo disco numa trajetória que vai completar meio século em 2024?


Esquina: Numa carreira tão longeva, certamente você deve ter passado por crises e quase necessidade de parar de vez, pelo que li numa entrevista que você deu. Quais foram os períodos mais difíceis da sua carreira e em que momento você de fato pensou em parar de cantar? Você disse que foi em Recife, quando uma mulher chegou para você e disse que sua voz enchia a casa dela de alegria, que adorava escutá-la, fale um pouco desse episódio e do que ele representou naquele momento?


Esquina: Você foi “mussa” de alguns cantores e compositores brasileiros, como Zé Ramalho, seu ex-marido, Vinicius de Moraes e Fagner, logo no começo da carreira. Fagner, por sinal, foi o primeiro a lhe dar oportunidade, quando você cantava como cover nos shows dele, ao ponto dele não querer mais lhe chamar para cantar, pois queria que gravasse seu disco e se tornasse profissional. Fale um pouco da importância desses artistas na sua carreira e por que relutava em não querer se profissionalizar e gravar o primeiro disco, que só foi gravado em 1977 “Flor da Paisagem”?


Esquina: Este ano, 2023, os artistas cearenses que ficaram conhecidos como o Pessoal do Ceará, artistas como Ednardo, Rudger Rogério, Téti, Fagner, Belchior, Fausto Nilo, Augusto Pontes, entre tantos outros, comemoram 50 anos de carreira, desde que alguns deles fizeram shows nas universidades e faculdades de São Paulo, em 1973, aí nasceu inclusive o nome dos cantores que participavam desses eventos, já que não eram uma banda, foram cunhados de o Pessoal do Ceará nas apresentações. Diferente de outros movimentos musicais como a Bossa Nova, a Jovem Guarda, a Tropicália, o Clube da Esquina, esse movimento musical não ganhou o devido reconhecimento nem tampouco foi estudado em profundidade em livros, discos e outros meios de divulgação. Você fala que a turma que fez esse “movimento” era bem eclética e não era tão coesos como os outros movimentos, já que mesmo que participassem de alguns trabalhos, cada um ia numa direção e criação artística diferentes. Qual o seu entendimento a respeito. Vocês pensaram em fazer um show comemorativo dos 50 anos, alguém pensou a respeito?

Esquina: Um dos lugares seminais para os artistas e intelectuais cearenses foi o Bar do Anísio, de propriedade de Anísio Muniz de Souza e sua esposa, Maria Augusta Pessoa Muniz (Dona Augusta), que era um bar a beira mar em Fortaleza nos anos 1960, e que reunia todo mundo que faria parte desse enorme grupo que representou o Pessoal do Ceará, que não era apenas de cantores e compositores, mais também de jornalistas, poetas, escritores, historiadores, filósofos e gente que pensava a vida em função da música e da arte. Você falou que ia lá como convidada. Quais lembranças que você guarda das vezes que ia lá? É tanta história interessante, importante e saborosa, que fica até difícil elencar uma, mas tem uma que me impressionou bastante, que aconteceu naquele lugar mítico, quando Belchior ouviu Augusto Pontes, um agitador cultural da época, compositor, professor e publicitário, falar nas mesas daquele lugar que “Eu sou apenas um rapaz latino americano sem parentes militares, sem parentes no poder: Apenas eu, a pé, só eu, a pessoa eu”. Aí nascia, na cabeça do Belchior, alguns trechos do seu maior sucesso “Apenas um Rapaz Latino Americano”…


Esquina: O poeta, compositor, diplomata e cantor, Vinicius de Moraes, foi muito importante no inicio da sua carreira, quando lhe convidou em 1975 para fazer parte das turnês que ele realizava em alguns lugares da América Latina e no Brasil com cantoras, quando foram fazer shows em Punta Del Leste, no Uruguai. Lá, você cantou várias músicas, inclusive uma canção que você mesmo adaptou “A Gia”, ao ponto das pessoas pedirem bis, o que você fez com o consentimento de Vinicius. O poeta também fez um poema em sua homenagem e uma linda canção, que nem sabia que foi feita para você, pois sempre escutei cantada por Clara Nunes, Aí, Quem Me Dera. Por que você nunca gravou essa música em disco? Chegou a cantá-la em algum show? Você dizia que era uma música longa demais e que não cabia na sua voz, voz essa que encantou a todos os artistas e cantores da época, ainda mais Vinicius de Moraes. Você nunca dedicou um disco em homenagem ao Vinicius de Moraes, chegou a pensar em fazer?


Esquina: Você tem sucessos que estão aí eternizados no cancioneiro da música brasileira e nas vozes de algumas outras cantoras e cantores, como Frevo Mulher, que foi uma das músicas que Zé Ramalho, que ainda nem era seu namorado, fez especialmente para você, além de Galope Rasante. No entanto, têm duas músicas que nem tem como não associá-las a você e que dificilmente ficariam bem em outras vozes, como Uma Mulher Nova, Bonita e Carinhosa, Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor e Foi Deus Que Fez Você, música de Luiz Ramalho, primo de Zé Ramalho, que participou do Festival MPB Shell 80 na Rede Globo, tirando o segundo lugar e perdendo para Agonia, defendida por Oswaldo Montenegro. Você concorda com essa associação? Como essas músicas chegaram a você e em que circunstâncias? Como você vê essas músicas hoje?


Esquina: Em 30 de abril de 2017, morria um dos mais enigmáticos e talentosos artistas da música brasileira, Belchior, cercado de muitas histórias e fofocas a respeito do seu “desaparecimento” e de sua vida pessoal, o que ofuscou naquele momento a importância dele para a música brasileira. Eu trabalhava no Caderno 2, do Estadão, e a entrevistei por conta da morte dele, nem lembro o que você falou na época por telefone, mas você ficou bastante abalada. Fale um pouco a respeito de Belchior na sua vida e carreira, artista que você gravou um disco em homenagem De Primeira Grandeza: As Canções de Belchior, em 2017, e já fez shows cantando suas músicas. Por que alguns artistas têm sua vida pessoal mais destacada do que sua vida profissional? Pergunto isso, pois você sempre teve uma vida privada bastante discreta e longe dos holofotes, sempre se preocupou em preservá-la?


Esquina: Amelinha, olhando para o retrovisor da vida, você se arrependeu de alguma decisão que tomou na carreira? A vida e a carreira que têm hoje eram o que você esperava, desde que começou meio sem querer cantando nos shows universitários e depois nos shows de Fagner e relutava em gravar um disco de estúdio?




 

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