• Amilton Pinheiro *

Beatriz Rabello faz show com o pai, Paulinho da Viola, exaltando o Carnaval


Beatriz Rabello tentou a todo custo fugir da carreira artística. Vinda de uma família de músicos, ela foi fazer jornalismo. O DNA artístico da cantora e atriz justificava seu medo – avô violonista, César Faria; pai cantor e compositor, Paulinho da Viola; e tio violonista, Raphael Rabello. Ela temia as comparações e as cobranças que viriam.

Mas crescer na casa de Paulinho da Viola, cercada por cantores e instrumentistas, certamente já estava moldando seu caminho para a música. Tanto é que tímida, como o pai, ela cantava às escondidas. Ciente desse peso, ela só subiu no palco pela primeira para cantar quando seu pai a convidou para participar da gravação do seu CD Acústico, em 2007. Ali nascia, segundo ela, a Beatriz cantora.

Após essa estreia, ela recebeu convites para participar de musicais, fez um em homenagem a Elizeth Cardoso (1920-1990), e recentemente atuou no musical Zeca Pagodinho – Uma história de amor ao samba. Mesmo ciente de que era uma cantora e que iria seguir a carreira do grande Paulinho da Viola, Beatriz só foi gravar seu primeiro trabalho no ano passado, quando lançou Bloco de Amor, que trazia sambas clássicos e canções inéditas.

Ela queria fazer um trabalho sem a participação do pai, que aconteceu de forma inesperada e natural. Ao pesquisar o repertório, pautado em sambas que traduzissem o espírito do carnaval, com seus encontros e desencontros amorosos, ela terminou indo parar em algumas músicas da autoria de Paulinho, como Só o Tempo, e de compositores como Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e Dona Ivone Lara. Eram sambas clássicos que dialogavam com autores contemporâneos que ela iria gravar, como Mourão Que Não Cai, de Douglas Germano.

Beatriz terminou chamando o pai para gravar uma das músicas com ela, Só o Tempo, com novo arranjo que ele tinha feito para o seu disco A Toda Hora Rola Uma História de 1982. Mas Paulinho da Viola teria uma participação ainda maior no primeiro disco de Beatriz. No último dia de gravação em estúdio, ela chegou em casa felicíssima para dizer que o disco estava pronto. Paulinho olhou para ela, com aquele jeito sereno e olhar enigmático, e disse que faltava uma música. “Acabei de fazer um samba para seu disco”.

Ele mostrou a música Bloco de Amor, que traduzia, segundo Beatriz, a essência do disco que ela havia concebido. “Sabe amor, eu já tenho um carnaval pra mim/É um belo e meigo arlequim/ Apareceu pra mim levar/Resolvi me livrar daquela velha fantasia”. A música entrou não somente no disco, como deu o título a ele.

As 13 faixas do CD, sete inéditas, exaltam o carnaval de rua que melancolicamente traduz os amores furtivos que acontecem durante a maior festa popular brasileira, o mesmo carnaval que passava pelo bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, de Paulinho da Viola e da menina Beatriz, que ao lado do pai, observa o cortejo de alegrias esfuziantes e com prazo de validade para aqueles encontros que aconteciam durante o festejo.

A seguir uma rápida entrevista com Beatriz Rabello por e-mail para o Esquina, antes das quatro apresentações que ela faz ao lado do pai, Paulinho da Viola, no teatro do Sesc Pompéia a partir desta quinta, 8, até domingo, 11, apresentando parte do disco Bloco de Amor, com músicas do pai, como Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, e marchinhas de carnaval, como As Pastorinhas e Bandeira Branca.

Esquina da Cultura: Você disse que se inspirou no carnaval de rua para fazer o álbum Bloco do Amor, lançado em 2017, e que queria canções que exaltassem um Rio de Janeiro sem violência, através de encontros e desencontros amorosos. Mas a violência do Rio cresce assustadoramente dia a dia. Como essa violência lhe afeta como artista? Já pensou em se mudar do Rio por causa da violência?

Beatriz Rabello: A violência cresce assustadoramente no mundo. Não é "privilégio" da minha cidade. O Brasil inteiro sofre com isso, o mundo inteiro sofre. Em alguns lugares é em menor escala e a segurança é mais bem estruturada, mas não me vem à cabeça nenhuma grande cidade onde eu me sentiria muito mais segura e que justificaria uma mudança. E, neste momento da minha vida, não poderia ir para uma cidade pequena ou mais afastada. Penso que a arte é um pilar de um movimento anti-violência. A música, o teatro, a dança, as artes plásticas, as muitas vertentes de artesanato, enfim, toda arte oferece muitas possibilidades de expressão, de crescimento pessoal, de autoconhecimento, de construção e resgate da autoestima, da consciência de quem somos individual e coletivamente. A arte realmente salva o ser humano. E talvez só ela salve...

Esquina: Você, além de cantora, é atriz e está no musical Zeca Pagodinho – Uma história de amor ao samba. Como pensa em conciliar as duas carreiras, já que algumas “cantrizes”, como Elba Ramalho e Tânia Alves não conseguiram tocar as duas atividades? Se sente mais cantora ou atriz?

BR: Eu já concilio as duas atividades há algum tempo e tem dado certo. Lancei meu primeiro CD há 1 ano, mas sou cantora há alguns anos e até aqui tenho feito peças e shows sem grandes dificuldades. Não sei se as artistas que vocês citou "não conseguiram tocar as duas atividades". Talvez elas tenham apenas escolhido o que mais queriam fazer. Talvez o mercado de teatro musical hoje seja mais promissor que há 20, 30 anos atrás. Não posso responder sua pergunta baseada nos exemplos que você citou porque as realidades dos mercados de teatro e música mudaram muito de alguns anos para cá. Posso apenas falar que para a minha geração é bem comum se desdobrar em atividades que se complementam.

Esquina: De que maneira seu pai lhe ajudou na escolha de sua carreira como cantora? Pesou as comparações?

RB: Ele sempre foi uma inspiração, como pai e como artista. Cresci observando e admirando tudo o que ele é e faz e isso naturalmente despertou em mim a necessidade de me expressar artisticamente. Nunca fui comparada a ele, curioso, né?

Esquina: Você passou dez anos para lançar Bloco do Amor, depois que começou a cantar. O que aconteceu nesse intervalo?

RB: Fiz teatro e me apresentei cantando em diversos lugares.

Esquina: O show que fará no Sesc Pompéia será em cima do repertório do álbum Bloco do Amor e de algumas canções do seu pai. Como é dividir o palco com Paulinho da Viola? Como é a relação do Paulinho pai com o Paulinho cantor?

RB: Eu divido palco com meu pai. E sustentar isso já é muita responsabilidade... Acho que por defesa mesmo eu não fico pensando muito nisso. Até porque não consegui ainda desenvolver plenamente essa capacidade de desdobrar o olhar e ver "Paulinho da Viola" e "pai" como duas figuras distintas. Ele não se coloca dessa maneira na vida e eu não fui criada para vê-lo assim. Para mim ele é meu pai, para as outras pessoas é que ele é Paulinho da Viola. Quem está de fora só tem essa visão mesmo, e fica mais fácil desdobrar a figura pública da figura paterna. Mas eu nasci dentro de uma célula familiar onde, antes de qualquer nome, ele é pai. E não tem nada do mundo externo que mude isso. Mas nenhuma figura pública mexe tanto com a gente quanto pai e mãe rs.

Esquina: Paulinho da Viola diz que é um homem do século XX, que canta sambas para um tempo bem mais lento. Esses tempos vertiginosos, de informações vindas de todos os lugares, qual é o lugar do samba que Paulinho da Viola canta?

RB: Quem sou eu pra dizer qual é o lugar do samba. Como público, posso dizer que ouço sambas de Paulinho da Viola em todas as rodas de samba que vou, em casas noturnas, em quintais, na zona sul, zona norte, zona oeste, baixada, no nordeste e no sul, no Brasil e fora dele...

SERVIÇOS:

Paulinho da Viola e Beatriz Rabello – Bloco do Amor

Sesc Pompeia. R. Clélia, 93, Pompeia. Qui. (8) a sáb. (10): 21h. Dom. (11): 18h. Ingr.: R$ 18 a R$ 60 (Esgotados). 12 anos.

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