• Matheus Mans

A busca pela memória e pela identidade nacional em 'Legalidade'


Legalidade, novo filme do cineasta Zeca Brito (A Vida Extraordinária de Tarso de Castro), conta uma história que deveria estar nos livros, nas salas de aula, na memória das pessoas. Mas, infelizmente, é mais um daqueles momentos históricos brasileiros que acabam ficando esquecidos num canto escuro da memória coletiva, sendo salvo apenas pelas conversas em mesas de bar. Por isso, aliás, que é tão importante falar sobre este novo longa, que mistura ficção e fatos históricos pra reavivar a resistência brasileira.

A trama acompanha a história do Legalidade, um movimento comandado pelo político Leonel Brizola após a renúncia de Jânio Quadros. Momento político conturbado, militares ameaçaram impedir a posse de João Goulart -- cunhado de Brizola e que, no momento da renúncia, estava em missão diplomática na China. Foi o governador do Rio Grande do Sul, então, que se mobilizou com seus compatriotas para evitar um golpe no País. Armas e comunicação "subversiva" também entraram na estratégia do movimento.

"A ideia nasceu quando fui fazer faculdade de cinema. Naquela época, meu pai me alertou que, quando eu fosse contar uma história, contasse a do Legalidade", conta o diretor, que é gaúcho e está em seu quinto longa-metragem. "Li muito sobre isso, pesquisei, entendi tudo com muita calma. Até que um dia me dei conta que era uma história muito importante para o Brasil, mas que não estava nos livros didáticos. Era uma história familiar, passada de geração em geração, que precisava ir pro cinema".

Assim, esta ideia acabou gerando o filme que chega aos cinemas nesta quinta, 12. Há, no longa-metragem, uma acurada precisão histórica, que desenvolve a figura de Leonel Brizola como o estadista que foi. Além disso, há uma ambientação história, dos anos 1960, que enche os olhos -- é intrigante, contribui para a trama e mostra qualidade. Mas o principal no filme, e que mais chama a atenção durante os 120 minutos de duração, é o ar patriótico que rodeia todo o movimento e chama a atenção pra identidade nacional.

"Leonel Brizola era muito patriota e traz esse sentimento que precisamos reencontrar no Brasil", afirma Zeca Brito ao Esquina. Questionado sobre a proximidade da história com o País de hoje, Brito deixa claro seu desgosto. "Falamos de um passado que flerta com o autoritarismo, com a censura. É cruel, é triste. Se esse filme parece com o Brasil de hoje, socorro! Acordem!", exclama. "Somos uma cultura maravilhosa graças às diferenças. É a confluência cultural, religiosa, o respeito às diferenças. É o que nos une".

Linguagem da novela

Há algo de curioso em Legalidade que é uma história ficcional que ronda todo o filme. Liderada por Cléo Pires, esta trama paralela acompanha um triângulo amoroso formado por ela e dois irmãos. Rapidamente, porém, descobre-se que a personagem de Cléo possui segundas intenções nesse relacionamento. No entanto, entra aquele embate já clássico das novelas e dos dramalhões: viver um grande amor ou seguir ideais políticos? Fazer o que ama ou seguir com as obrigações? Coração ou cérebro? Razão ou emoção?

Zeca Brito adota um tom novelesco nesse trecho, usando e abusando de ferramentas que ajudam a dar um ar de familiaridade para o grande público -- é a trilha sonora marcante em momentos intensos, sexo, relações amorosas conturbadas, dentre outros.

Apesar de ser alvo de algumas críticas, a linguagem é bem explicada pelo diretor. "A gente brinca com a cultura popular. É um filme de alfabetização", afirma o cineasta. "Contamos uma história por meio de algo que o povo gosta: a teledramaturgia. É com beijo, com triângulo amoroso, com a personagem escutando atrás da porta. São clichês deste formato que misturamos com a cultura erudita, profundidade histórica. Afinal, no fim das contas, não esquecemos que o Brasil é, na verdade, uma grande telenovela".

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