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  • Matheus Mans e Bárbara Zago

‘A Ghost Story’ e a metáfora intrínseca sobre o tempo


Listas de melhores filmes do ano sempre são polêmicas. Afinal, um filme pode ir muito bem no conceito de um crítico, enquanto pode ser uma catástrofe para outro. É a eterna questão que sempre ronda a imprensa especializada em cinema e que gera debates acalorados sobre o que é crítica e opinião. No entanto, em 2017, um filme em especial fez parte de quase todas listas de melhores do ano, variando entre os três primeiros colocados: A Ghost Story.

Dirigido por David Lowery, de Meu Amigo o Dragão, e estrelado por Casey Affleck e Rooney Mara, o filme acompanha um casal que não consegue se entender. O marido quer continuar morando na mesma casa enquanto ela quer seguir a vida, vender a residência e achar novos caminhos. No entanto, no meio das discussões, o rapaz morre num acidente. E é aí que entra o grande momento de A Ghost Story: o espectador vê a vida pelo fantasma do rapaz.

A partir daí, o longa-metragem entra num interessante ensaio existencial, discutindo várias questões pessoais e sociais. Tudo isso embalado numa direção cuidadosa repleta de bons momentos, além de uma atuação interessante -- e extremamente física -- de Affleck. Porém, o grande ponto de A Ghost Story vai além da camada superficial da história: está em todos os seus detalhes, que compõem uma narrativa intensa e avassaladora sobre a crueldade do tempo.

Sim, podem existir outros significados. Um filme, assim como um livro ou uma pintura numa tela, são obras artísticas que criam um diálogo com quem as saboreia. Eu posso entender alguma coisa de uma história, enquanto você pode entender outra completamente diferente. É a maravilha da Arte. É inegável, porém, que o grande tema de A Ghost Story é o tempo. E, a partir daqui, iremos falar sobre os detalhes que confirmam isso e mostra a genialidade por trás do filme.

Fotografia

Um dos aspectos mais inteligentes de A Ghost Story reside na fotografia e na paleta de cores. Repare: o filme transita entre cores acinzentadas, com a tela esfumaçada, e cenas com a fotografia sendo comandada por cores pastéis, mas com brilhos dourados e laranjas em certos momentos. Isso, inconscientemente, ajuda a orientar o espectador para o tempo que o diretor quer mostrar com a história, além de indicar aspectos emocionais do seu protagonista.

Veja a questão da temperatura de cores: o vermelho e laranja, por exemplo, são cores mais quentes. No cinema, dentre outras coisas, passam uma noção de vida, de amor, de calor, de conforto. Os relances dourados que aparecem contrastados às cores pastéis mostram que, no passado, o personagem tinha uma vida apática (são as cores pastéis), mas com um ou outro relance de amor à sua companheira. Havia uma fagulha de esperança no amor, no romance.

Quando vamos para o presente, no entanto, o cinza impera. Esta cor, que está no espectro oposto das cores, mostra que a apatia tomou conta, junto com uma desesperança que toma a tela por meio da fumaça. É um simples recurso, que pode passar despercebido em uma primeira análise do longa, mas que marca temporalidade na obra e o ânimos que imperava aos seus personagens. O passado se foi, mas com lembranças calorosas. Já o presente é solitário. Esfumaçado.

No final, é o tempo imperando e mostrando que é avassalador, mudando o significado da vida e a emoção que toma conta de seu interior.

Edição

Outro aspecto muito interessante é a edição de A Ghost Story, comandada pelo próprio David Lowery. Aqui, há dois pontos a serem analisados: a câmera e os cortes longos. Sobre o primeiro ponto, a de se alongar um pouco mais. Logo que você começa a ver o filme, há o estranhamento natural da tela, que tem um formato quadrado de 1:33.1. Ele, antes de tudo, emula o formato de filmes da década de 1950, que tinham limitações técnicas e visuais para exibir suas obras.

Além disso, há também a sensação de temporalidade para nós, que estamos assistindo ao filme. Pense que tem um lençol em cima de você e tudo que você pode ver é por meio de dois círculos, rasgados no meio da cobertura de pano. Sem dúvidas, você teria uma visão limitada sobre a vida que discorre na sua frente, causando desconforto e vendo tudo com as bordas arredondadas. Então será que também estamos vendo o tempo correr enquanto somos fantasmas?

Fica este interessante e delicado questionamento deixado por David Lowery para a reflexão.

E o outro ponto da edição, e que também reflete aspectos temporais dentro da obra, são os cortes longos. Algumas cenas, como a Rooney Mara comendo torta, são exageradamente longas. É o tempo se arrastando, mostrando que determinados momentos -- como a dor e o luto -- podem se prolongar demais, parecendo ser intermináveis. É o dolorido ciclo da vida, que se arrasta e se repete em doses que machucam a nossa existência. Sacada genial de Lowery.

Roteiro

Falar de roteiro, no caso desta análise, pode parecer algo muito amplo e óbvio -- afinal, já falamos que A Ghost Story tem uma história voltada para falar sobre o tempo. No entanto, o roteiro de Lowery possui alguns detalhes que precisam ser ressaltados. O primeiro é a boa sacada de tornar a história cíclica, com aspectos de ida e vinda. É como a vida, que vem e que volta a todo momento, trazendo dores, sofrimentos e alegrias de tempos em tempos, em iguais medidas.

O mais genial do roteiro, porém, é um trecho específico: o monólogo do ator Will Oldham. Além da excepcional interpretação de Oldham, o trecho em si é o que resolve todo o filme. Sem dúvidas, você pode sair com dúvidas sobre o significado da obra em si -- afinal, o fim do longa é um tanto quanto aberto. Você pode, então, rever o trecho em si para conseguir desprender os principais significados do filme de Lowery. E isso é uma ótima sacada do roteiro.

Afinal, o filme não termina com uma conclusão óbvia e o próprio monólogo não é fácil de entender. É preciso ver repetidas vezes para compreender o que o personagem quer dizer. Mas quando você entender, o efeito é imediato: o propósito do longa-metragem rapidamente é descortinado na sua frente, enquanto uma necessária reflexão deve se abater sobre seus espectadores. É um efeito que poucos filmes conseguem causar e que, em A Ghost Story, é inigualável.

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Todos esses motivos justificam a presença quase onipresente de A Ghost Story nas listas de melhores do ano de 2017. É um filme forte, poderoso e cheio de significados dentro de si. É um sopro de originalidade, junto com Mãe!, num cinema cada vez mais cheio de remakes, sequências e reboots.

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