• Matheus Mans

Análise: Oscar erra mais uma vez ao excluir categorias da transmissão


Muitos devem estar se perguntando: o que está acontecendo com o Oscar? A premiação, que carrega o título de principal do cinema mundial, tem tomado uma série de decisões polêmicas, pra dizer o mínimo, nos últimos meses. Começou com a ideia absurda para a criação de uma categoria de "filmes populares". A proposta foi tão ridicularizada na internet que a Academia logo voltou atrás. Depois, veio a ideia de apresentar apenas duas canções originais durante a premiação -- outras três ficariam de fora. Lady Gaga se postou contra e voltaram atrás, claro. Agora, chega a decisão que consegue ser pior do que as outras já tomadas: cortar da transmissão a premiação de Melhor Fotografia, Edição, Maquiagem e Cabelo e Curta-Metragem em Live Action. Nada de ao vivo pra elas

Segundo a Academia, que tentou divulgar essa decisão da forma mais discreta possível, esta é uma forma de encurtar o tempo da cerimônia para três horas e deixar a premiação mais dinâmica. Ao invés de anunciá-las ao vivo, então, a entrega do prêmio seria transmitida apenas pelo streaming da entidade e, depois, exibida como forma de resumo nos comerciais -- algo que o Critics' Choice Awards faz. Ainda segundo a Academia, as quatro categorias "esnobadas" da transmissão entrariam em um rodízio. A cada ano, uma diferente entra no pacote. Para estrear em 2019, o Oscar optou por essas quatro e já fez barulho. Afinal, que raios de ideia péssima é essa? Quem pensou nisso?

O fato é que essa lambança tem nome e sobrenome: John Bailey. Ele foi eleito como presidente da Academia numa época em que o prêmio tentava se diversificar -- e que quase emplacou Laura Dern no lugar. Foi um balde de água fria em quem buscava algumas mudança significativa no Oscar. Afinal, é mais um homem, branco e rico que assumia a direção da Academia. As propostas de alterações da cerimônia, então, partiram da mente antiquada de Bailey, que ainda não entendeu o público do Oscar ou a forma de atingir novas camadas de público. Muitas coisas são forçadas, sem algum sentido propriamente dito. A Academia nem soube explicar o prêmio de filme popular.

E aí chegamos, novamente, nas quatro categorias "esnobadas". É absurdo ter Melhor Edição e Melhor Fotografia não sendo exibidas na cerimônia. Ambas são a base do cinema e, sem elas, não existiria nada do que conhecemos. Tubarão, por exemplo, abriu a temporada de blockbusters na sétima arte. O filme, porém, não é uma obra genial de Steven Spielberg, apenas. Grande parte do filme foi salvo após intervenção da editora Verna Fields -- parceira contumaz de Spielberg depois desse episódio. Enquanto isso, a fotografia foi uma das primeiras artes do cinema. O modo de filmar, muitas vezes, é determinante na qualidade final de um filme. E agora é deixada pra lá no Oscar?

Mais do que polêmica, essa decisão de Bailey é absurda. Mostra como ele está perdido, sem orientação, e não sabe como ganhar audiência. O público que iria se satisfazer com 10 ou 15 minutos a menos é o que não está nem aí pro prêmio. Afinal, isso não muda para os que já ficam sentados 3 horas em frente à TV. É uma alteração muito pequena e sem sentido. "Na história do cinema, obras-primas surgiram sem cor, sem história, sem som, sem atores, sem atrizes. Mas nunca existiu um único filme sem fotografia e sem edição", pontuou Alfonso Cuarón, diretor de Roma, sem Twitter. É exatamente isso.

A torcida que fica é que Bailey, ou alguém com lucidez na Academia, perceba como essa decisão não faz sentido. É melhor tirar piadas sem graça dos apresentadores ou reduzir um comercial do que apostar em uma coisa tão patética e sem efeito. Essa decisão só mostra como a Academia está mais alinhada com audiência e publicidade do que com o cinema. Se fosse diferente, nem tinham cogitado isso ou qualquer outra mudança no quadro de apresentações. Precisam arrumar toda essa lambança. O quanto antes.