• Matheus Mans

As histórias e a crítica social por trás das canções de Adoniran Barbosa


João Rubinato era um jovem entregador de marmitas. Franzino, sem nenhum grau de escolaridade e muito pobre, o jovem rapaz era conhecido por sua sagacidade ao surrupiar algumas almôndegas das marmitas e por não parar de batucar. Batucava a todo o momento, o que causava alguns transtornos com seus chefes. Logo, viu que o mundo dele não era como entregador de simples marmitas. Seu mundo era do batuque e da música.

Com muita coragem e totalmente sozinho, João Rubinato começou a tentar a sorte como ator ou cantor. Fazia dezenas de testes, todos infrutíferos. Afinal, não tinha frequentado a escola e nem tinha o mais importante: um padrinho para sua carreira. Tentou testes em rádios, teatros e até em circos. Em certo momento, resolve ir ao programa de calouros da época, o Calouros do Rádio, para cantar Se você jurar, de Ismael Silva. É gongado logo nos primeiros acordes. Porém, não desiste. Volta para o mesmo programa e canta a belíssima Filosofia, de Noel Rosa. É ovacionado pelo público e, neste momento, inicia-se a carreira artística de Adoniran Barbosa, nome artístico adotado por Rubinato.

Apesar de suas múltiplas habilidades e profissões, Adoniran se sobressaiu no campo da música. Mesmo não tendo uma voz considerada boa, o cantor e compositor paulista começou a fazer sucesso nos bares e nas rádios. Grava a marchinha Dona Boa e estoura no carnaval. Porém, Adoniran ainda não está feliz. Apesar da marchinha fazer sucesso, não era isso que o sambista queria. Ele queria falar diretamente com o povo, através de músicas que dialogassem diretamente com as massas. Que criticassem, que mostrassem o lado mais complicado da vida do pobre. Tudo isso sem perder o humor.

E é com essa receita de samba que Adoniran começa a emplacar seus maiores sucessos. Letras aparentemente simples e com uma melodia refinada, elas fizeram com que a realidade do pobre fosse, talvez pela primeira vez, alçada a nível nacional. Adoniran era um cronista da realidade brasileira.

Assim, iremos analisar algumas de suas obras abaixo, além de indicar outras e contar a história por trás de algumas de suas canções. Músicas belíssimas e que mostram os problemas da São Paulo de algumas décadas atrás, mas que continuam reais e atuais.

Saudosa Maloca

Certo dia, Adoniran estava andando na rua com seu cachorro, Peteleco, quando encontra seu amigo de boêmia, Matogrosso. Desesperado, o amigo contou para Adoniran que estava sendo despejado. A casa onde morava tinha sido demolida. Triste com a situação, o compositor paulista resolve escrever uma música onde denunciava o descaso social por parte do governo e, ao mesmo tempo, relatava as mudanças que estavam ocorrendo em São Paulo: os casarões sendo substituídos por edifícios.

Então, por conta de tal situação, Adoniran compõe Saudosa Maloca e estoura nas rádios. Neste momento, entra para o grupo seleto de compositores de samba e coloca São Paulo no mapa do ritmo musical.

Abaixo, um belíssimo vídeo onde Adoniran e Elis Regina andam pela cidade de São Paulo com Elis entoando os versos de Saudosa Maloca ao mesmo tempo em que o progresso da capital é mostrado.

Samba do Arnesto

Samba do Arnesto possui uma das mais divertidas histórias por trás de uma música. Ela conta a história de Arnesto, um homem que dá um bolo nos amigos e os deixa passando fome. O curioso por trás desta composição é que Arnesto existe mesmo! Só que há duas divergências: Arnesto, na realidade, chama-se Ernesto. E ele não deu bolo em ninguém.

Poderia relatar a história aqui, mas não teria a mesma graça que o vídeo abaixo: nele, Ernesto Paulelli, o Arnesto, conta a história do surgimento da música e canta e toca alguns dos trechos de Samba do Arnesto. Um vídeo, no mínimo, emocionante.

Apaga o Fogo, Mané

Em minha opinião, a mais bela de Adoniran. De forma muito singela, ela conta a história de um homem que é abandonado pela esposa. Descobre o abandono somente após achar um bilhete no chão. Uma música que pode marcar e retratar o início de certa independência feminina.

Trem das Onze

O maior sucesso de Adoniran, sem dúvidas. Muitos, devido ao sucesso, buscam significados para a letra e possíveis histórias que inspiraram o sambista paulista. Porém, não há nada demais. Certa vez, quando questionado, Adoniran disse que nem sabia onde ficava o bairro do Jaçanã. Abaixo, a interpretação do grupo Demônios da Garoa, que levou a música para o Brasil inteiro.

Aguenta a mão, João

Uma das letras mais críticas da safra do sambista paulista, ele relata os problemas consequentes de um problema que afeta São Paulo e muitas outras cidades brasileiras até hoje: as enchentes. De maneira muito particular, Adoniran narra os problemas das pessoas de uma favela após um forte temporal. Assim, tenta consolar João, que perdeu o barraco e sua cama. Abaixo, a gravação da música com Adoniran e Djavan.

Torresmo à Milanesa

Mais uma belíssima crítica de Adoniran. Aqui, mostrando o abuso sofrido pelos operários, que não recebiam nem ao menos o vale-refeição. Abaixo, um vídeo sensacional. Apesar da pouca qualidade no áudio e a falta de um microfone para Adoniran, é incrível ver o sambista paulista e Clementina de Jesus juntos, em vídeo.

Despejo na Favela

Mais uma música que é uma verdadeira crônica retirada do cotidiano da cidade e que ainda é extremamente atual. Relata o despejo de várias pessoas em uma favela. Além da sensação de impotência dos moradores, por se tratar de “uma ordem superior”, a miséria é algo presente na música e colocada de forma genial por Adoniran. Os versos “o que eu tenho é tão pouco/minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás” são belíssimos. Esta música passa do estágio de crônica. É um poema sobre o sofrimento dos pobres na cidade. Abaixo, a interpretação da música por Adoniran e Gonzaguinha.

Iracema

Adoniran estava lendo o jornal quando viu a notícia de que uma mulher havia sido atropelada e morta em plena Avenida São João. Assim, acaba criando a história de Iracema, um jovem que estava prestes a se casar. Em minha opinião, uma das mais interessantes do sambista. Mescla um humor sutil e refinado com a tragédia de se perder a noiva falando vinte dias para o casamento.

Triste Margarida (Samba do Metrô)

O metrô estava apenas chegando a São Paulo, quando Adoniran compôs essa música. Obviamente, trabalhar na construção deste novo transporte público era algo que elevava o status da pessoa. Por isso, Adoniran imaginou esta fantástica e humorada história. A mais engraçada, em minha opinião.

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Enfim, Adoniran era um verdadeiro cronista da cidade. Conseguia observar todas suas particularidades e colocá-las em forma de poema, na maioria das vezes de forma bem humorada e próxima do povo. Por isso, Adoniran continua vivo até hoje. Suas músicas, ainda tão atuais, são cantadas por todos os públicos e conhecidas por todos.

Para encerrar, um vídeo raro onde se mescla uma entrevista de Adoniran Barbosa, falando de sua vida, com o sambista paulista cantando alguns de seus sucessos com o grupo Demônios da Garoa.

#Samba #Música #MPB