• Amilton Pinheiro

Bloco 'Ano Passado Eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro' celebra Belchior

Desde que começou a pipocar os blocos de rua no Carnaval no Rio de Janeiro e em São Paulo, nos últimos anos, o rico manancial da música popular brasileira ajudou a formar alguns desses grupos que passaram não somente a homenagear os artistas e suas obras. Deram, também, um significado ainda maior de contestação e mobilização social a maior festa pagã do País. Mas, sobretudo, tornaram as obras e os artistas pouco conhecidos pelo público jovem dos blocos.


Foi assim que aconteceu com o bloco Ano Passado Eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro, que se debruçou sobre o repertório do cantor e compositor Belchior (1946-2016). O bloco é oriundo da Vila Anglo Brasileira, em Perdizes, precisamente no Bar e Lanchonete Chuá, na rua Estevão Barbosa, número 25, e na Escola Alecrim. “É nosso CEP”, responde por e-mail os integrantes do bloco ao Esquina, antes da apresentação que fizeram na Casa Natura Musical no domingo, 2.


Antes de falar de como foi essa primeira apresentação oficial do bloco na Casa Natura Musical, é interessante contextualizar e contar um pouco de que maneira a obra de Belchior serviu de alicerce para que um grupo de amigos da zona Oeste de São Paulo formasse o bloco em 2017.

História do bloco


Em 2016, com o Golpe Parlamentar que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, segundo os integrantes do bloco, houve um forte baque nos ânimos deles em relação ao futuro do País. Perceberam que o disco Alucinação de Belchior, lançado em 1976, e em outras obras do artista existiam “uma incrível atualidade e uma representação das nossas inquietações naquele momento” (é bom lembrar que Belchior tinha morrido em 30 de abril de 2016, aos 70 anos).


Para eles, a situação política e social do Brasil só piorou de lá para cá, culminando com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, sintetizando um “baque de morte”. Mas o que poderia paralisar, serviu de combustível para que eles continuassem colocando o bloco na rua. “(...) Nos sentimos soterrados pelo primeiro ano desse governo perverso que nos conduz para um dos piores momentos da história do País”, entendem eles.  Daí a necessidade de continuar participando dessa grande Festa. “O Carnaval para nós, significa soltar o nosso corpo na multidão, desfazer silenciamentos, sobreviver subjetivamente e gerar energia coletiva”, completam.


Disco seminal de Belchior, Alucinação trouxe os elementos não somente para batizar o nome do bloco, que foi pegar uma frase da música Sujeito de Sorte, a quarta das dez faixas do álbum. “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte/Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte/E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado/E assim já não posso sofrer no ano passado/Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, diz profeticamente o cantor nos anos 1970.

Para o biógrafo do cantor, o jornalista Jotabê Medeiros, que lançou em agosto de 2017 o livro Belchior – Apenas Um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 240 páginas), Alucinação, “por uma série de fatores, é obra-prima, disco perfeito da primeira à última música, que não se pode tocar de outro jeito senão na ordem que dispôs as peças. Tudo está no seu lugar. Caso raro na MPB”.


O bloco hoje é formado por volta de 70 integrantes entre guitarra, baixo, cavaquinho, trompete, duas vozes principais e quatro integrantes do coro, além de outros instrumentos, uma porta estandarte e uma madrinha. Em 2019, eles levaram por volta de 1.500 foliões, que seguiram o bloco na Praça Rio dos Campos, em Perdizes. Além de 14 músicas de Belchior, grande parte de Alucinação, eles cantam e tocam outros artistas, que para eles dialogam com o cantor cearense.


Dentre eles, Tom Zé, Caetano, Gil, além da Banda Baiana System e grupos de rock underground Roger Against The Machine e White Stripes, e a banda Chico Science & Nação Zumbi.

No palco da Casa Natura Musical

Apesar de ser um bloco de rua, Ano Passado Eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro já se apresentou em lugares fechados em outras ocasiões, como O Estúdio Bixiga e Centro Cultural Rio Verde. Essa experiência deu traquejo pro show de estreia do bloco na Casa Natura Musical.


Com início marcado para às 17h, horário do show, o bloco só começou de fato por volta das 19h30. Antes, houve uma série de atrações, como a de concurso de Slam e um DJ tocando músicas de outros gêneros, grande parte de funk, o que causou um certo estranhamento entre os presentes, já que o repertório do grupo vem de Belchior e de outros ritmos musicais.


Mas tirando esses percalços, os integrantes do bloco mostraram uma grande força no palco, com dois competentes vocalistas, um homem e uma mulher, um potente coral, ajudado pelo público presente, e uma banda de músicos afinada. Todos os envolvidos entoaram a poesia concreta das músicas de Belchior, difíceis de serem cantadas, quase que perfeitamente.

Diante da profusão de frases das músicas de Belchior e de letras difíceis de serem memorizadas, o bloco mostrou que os ensaios que fazem, vem surtindo efeito. Conseguiram driblar quase a perfeição essas dificuldades. Mas faltou, para o público presente, que a exibição das letras das músicas nos dois telões próximos do palco. Facilitaria um acompanhamento.


O que é revelador nessa apresentação, que o Esquina viu pela primeira vez, é saber que as inquietações e a crítica social das músicas de Belchior entoam na alma do público presente -- que é formado, em grande parte, por jovens e algumas crianças. Mesmo extravasando alegrias pertinentes as suas juventudes e as folias de Carnaval, eles cantavam com vigor as letras do músico cearense. Mostrando, no entendimento do próprio bloco, que Carnaval e Folia comungam com as letras sociais e politizadas do Belchior com o espírito sempre inquieto do jovem. Como no lema que o bloco diz nos finais das músicas: “Sempre desobedecer, nunca reverenciar!”.

Entrevista


Esquina da Cultura: Os blocos de Carnaval, que tomaram conta das ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo, nos últimos anos, diversificaram seus repertórios, tocando não apenas marchinhas e músicas do “momento”, mas homenageando cantores da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Rita Lee, além de alguns artistas internacionais como os Beatles e bandas de rock.


O bloco de vocês nasceu em 2017, fugiu de um repertório mais convencional, e se debruçou no repertório de um cronista da música popular, Belchior. Qual o motivo dessa escolha? Quais foram os maiores desafios para adaptar as músicas de Belchior ao ritmo de marchinhas?


Bloco Ano Passado Eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro: Uma grande temática do Carnaval é a própria cultura. Tem alguns blocos que usam de sátira e outros que de alguma forma procuram reler tradições. O recente crescimento do Carnaval em São Paulo trouxe blocos que buscam resgatar histórias que são nossas, identitárias. Acreditamos que o repertório de artistas como Chico, Caetano, Gil e Belchior preenchem um pouco dessa vontade de trazer às ruas canções que ajudam a nos compreender como povo. No nosso caso, sob o impacto do golpe parlamentar de 2016, vimos nos questionamentos sociais e na crítica política do disco Alucinação – além de em outras obras de Belchior – uma incrível atualidade e uma representação das nossas inquietações naquele momento. Dialogar com esse disco foi a nossa motivação principal. E a forma artística desse diálogo apareceu como bloco de Carnaval. Como festa e rua ao mesmo tempo. E o próprio disco Alucinação - claro, talvez na nossa audição que estava ali atrás de esperança - nos trouxe formatos de marcha-frevo, de samba enredo, de maracatu. Festa e rua, né? Daí foi trabalho coletivo. Muita gente desde o começo: gente que veio e foi, gente que veio e ficou, que foi e voltou, que foi mas está presente. Gente de muitos lugares, com experiências musicais diversas. Até hoje nossos arranjos são exercícios coletivos, tentando juntar aquele impulso inicial de diálogo com o que o Belchior propunha com a diversidade de gentes, referências e sons que temos dentro do bloco.


Esquina: O título do bloco Ano Passado Eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro, foi tirado de uma música de Belchior, Sujeito de Sorte, presente no álbum considerado a obra prima de Belchior, Alucinação. De alguma forma há uma forte carga de ironia nesse título que comunga com as letras irônicas do artista. Foi intencional?


Bloco: Pra gente foi bem literal, sabe? Houve uma morte simbólica em 2016, política. Um grande susto, medonho. Golpe que entendíamos como insuperável. Esta "morte" simbolizava um sentimento evidente, de paralisação. E o grito para sair dali era o nosso pacto em fazer algo, em abandonar o susto. Este título vem se atualizando pela própria força poética que traz. No final de 2018, após as eleições presidenciais, sentimos novamente esse baque de morte, mas pactuamos que iríamos abrir o verbo em 2019. O fizemos, mas nos sentimos soterrados pelo primeiro ano desse governo perverso que nos conduz por um dos piores momentos da história do país. Queremos de novo, gritar em 2020: esse ano a gente não morre! Queremos manter no horizonte essa utopia, como energia de transformação e luta, mesmo sabendo que o título continuará atual nos anos vindouros.


Esquina: Falando no álbum Alucinação, lançado originalmente em 1976, nas suas dez faixas, Belchior trouxe seus temas mais caros, como a violência, a solidão, sonhos desfeitos, o abandono, o desencontro amoroso e a necessidade do novo e da liberdade do indivíduo diante de uma sociedade e de um estado massacrante. Como combinar temas tão complexos e densos para o estado de espírito do Carnaval com o seu descompromisso com “seriedade”?


Bloco: Já foi uma brincadeira interna aqui no bloco que o Carnaval não deve ser encarado como feriado. É historicamente um momento de contestação e mobilização social de grande importância. Carnaval é coisa séria! É trabalho, é luta, é resistência. É uma festa, sobretudo política e, na forma, a mais descontraída, genuína e popular que podemos ter. Uma expressão de rua, daquilo que pode ser genuinamente público e comum. O Carnaval, para nós, significa soltar o nosso corpo na multidão, desfazer silenciamentos, sobreviver subjetivamente e gerar energia coletiva.  Ser muitos, espalhar-se como parte que não se basta, nem quer se conter. É um evento social, por fim. Ou seja, ele é político, mesmo que a sua grande força não esteja em uma apreensão racional, objetiva. A mensagem de Belchior nos provoca como base de um discurso estético, político, e soma-se a isso uma música gostosa de cantar, tocar. Pra gente é muita potência!


Esquina: Além das canções de Belchior, o repertório do bloco traz outras músicas de cantores e bandas como Tom Zé, Caetano Veloso, Chico Science & Nação Zumbi, e grupos como Rage Against the Machine e White Stripes, representantes de um rock mais pesado e underground. Como vocês enxergam esse diálogo? A obra de Belchior era comparada ao estilo de Bob Dylan, tem alguma música do artista americano no repertório de vocês?


Bloco – Que ideia boa! Vamos olhar com carinho! Mas sabe, o repertório do nosso bloco cresce em nossos ensaios, que são muitos! Porque estamos viciados em conviver. O bloco às vezes perde um pouco as fronteiras, e quase se torna um coletivo cultural e político. Não está distante implementarmos ações para além da música, fora da data do Carnaval inclusive. Outro ponto que vale destacar é o trabalho visual em nossas apresentações. Bandeiras distribuídas para o público, vídeos, frases e projeções unem-se às nossas expressões. E sim, você tem razão, tudo que cantamos ou exibimos, mesmo de outros autores, tem como base o diálogo com o Alucinação, tanto que muitas das outras músicas surgem como incidentais.

Esquina: Conte um pouco a experiência de vocês no Carnaval de Rua de São Paulo. O bloco sai em que dia do Carnaval e em que bairro? Quantos foliões acompanham o bloco hoje?


Bloco: O bloco surge de dois lugares muito especiais: o primeiro deles é a Vila Anglo. Somos de lá, é o CEP do bloco. Aliás, o bar do Pernambuco, o Chuá, na rua Estevão Barbosa, é bem parte da nossa história. E outro recanto em nossas vidas que vale a pena destacar é a Escola Alecrim. Foi em encontros de pais da escola que o grupo deu os primeiros passos. No último ano, o cortejo foi uma delícia, com 1.500 pessoas, mais ou menos, dividindo conosco a praça Rio dos Campos. A rua é o nosso ponto alto. O mais desejado. Nossa festa começa bem antes, com um trabalho insano de organização e, no dia seguinte, vamos lá garantir que a praça ficou limpa, retirar os restos da festa. Temos integrantes engajados na ideia do lixo zero e da redução de impactos que possam ser negativos à comunidade. Agora, essa pergunta dá um frio na barriga… Não sabemos quantos foliões irão nos acompanhar! Tomara que não dobre de tamanho. Ou talvez, só dobre, não mais que isso!


Esquina: O bloco tem repertório próprio? Quantos integrantes tem o bloco hoje?


Bloco: Somos em torno de 70 integrantes, entre harmonia (guitarra, baixo, cavaquinho e trompete), vozes (duas principais e mais quatro no coro) e uma bateria com surdo, alfaia, caixa, repenique, agogô, tamborim, timbal, chocalho, agbê e triângulo, além da porta estandarte e da madrinha.  Acontece um trabalho intenso para equilibrar harmonia e bateria.  Vale dizer que, além de interpretar releituras de canções já conhecidas, temos em nosso repertório uma canção original, de autoria do Paulo Aliende, do Bloco do Fuá, parceiro de luta e alegria carnavalesca.


Esquina: É a primeira vez que vocês se apresentam na Casa Natura Musical. Como será essa apresentação num lugar fechado, já que vocês pertencem a um bloco de rua?


Bloco: A Casa Natura Musical receberá o nosso primeiro baile, O Indomável! Tem rolado uma experiência bacana com a gente, que começou no bar e restaurante palestino Al Janiah. Fizemos muitos shows e ensaios abertos por lá, e isso foi nos ensinando a nos comportar também no palco, sem cortejo. Tocamos no Centro Cultural Rio Verde, por exemplo. No Estúdio Bixiga, na Pinacoteca. Tocamos também em projetos que admiramos, como o assentamento Irmã Alberta, do MST, a Ocupação Nove de Julho, do MSTC, e a Arena Social Bela Vista. Celebramos a rua, mas fazemos Carnaval o ano todo em lugares diversos. Esse é um processo de contínuo aprendizado.


Esquina: Em torno de quantas músicas do repertório de Belchior vocês tocam? Quais as músicas do cantor que o público, que segue vocês, mais gosta?


Bloco – Estamos com 14 músicas no repertório, 10 são de Belchior. Sujeito de Sorte, talvez? Não sabemos… Mas dá curiosidade de saber.


Esquina: A obra de Belchior tem uma dimensão política, tema preferido das marchinhas de Carnaval do passado que adoravam criticar a política e os políticos de outrora. Mas essa dimensão não acontece de forma explícita, presente nos artistas mais engajados da MPB, nos anos 1970. Que músicas com dimensão política vocês tocam no bloco? E como vocês entendem a atualidade dessa obra nos dias de hoje?


Bloco: O nosso repertório é bastante político. Por exemplo, comumente interrompemos as canções com um grito forte, uníssono: “Sempre desobedecer, nunca reverenciar!”. A música Sul-americano, do Baiana System, é nova em nosso repertório e é uma pedrada! As músicas mais antigas, as de Belchior, acho que todas são políticas, umas mais contundentes do que outras, mas no geral tudo manifestado como canto torto e político.


Esquina: Somos PhD em descanso com nossa memória artística. Belchior mesmo, estava fora da mídia e esquecido do grande público, claro que parte disso se deveu ao próprio artista que gostava de viver recluso. Mas mesmo assim, o Brasil não é cuidadoso com a sua memória cultural. Blocos como o de vocês, ajudam a trazer à tona artistas esquecidos, como Belchior para o público mais jovem do Carnaval?


Bloco: Tem um lado que é essa busca por tradições, por mensagens mais profundas relacionadas a nossa história e identidade. Esses músicos, poetas, artistas nos ajudaram a perceber o país e a transformá-lo, dentro do possível, com o que cantaram. Eles dão forma aos nossos sonhos e nos ajudam a verbalizar as nossas lutas. A nova geração merece esse repertório.

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