Crítica: ‘Dois Procuradores’ é um dos grandes filmes de 2026
- Matheus Mans
- há 1 minuto
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O ano é 1937. Stálin está no poder e a União Soviética atravessa um período turbulento -- campos de trabalho, tortura e sumiço de pessoas, mesmo aquelas próximas do líder. É nesse cenário que surge Kornev (Alexander Kuznetsov), o novo procurador de um pequeno município que é chamado para entender o que está acontecendo com o antigo dono de seu cargo, preso e torturado. Essa é a história de Dois Procuradores, estreia desta quinta, 5.
Dirigido por Sergey Loznitsa (de Donbass), o longa-metragem mergulha não apenas na complexidade da figura de Kornev, esse funcionário governamental que pretende fazer o “certo", como também no clima dessa época em que nada é compreensível. Tudo que envolve a jornada do personagem passa por dois momentos: burocracia e desconfiança.

Sobre o primeiro ponto, Loznitsa abraça Kafka e, quase numa recriação de O Processo, mostra Kornev tentando, desesperadamente, entender o que motivou a condenação desse antigo procurador, vivido por um brilhante Aleksandr Filippenko. Nada é fácil de entender e, principalmente, tudo é lento. Várias cenas possuem um relógio ao fundo e as horas andam como se fossem dias; minutos como se fossem horas; segundos como minutos. O tempo se arrasta e se torna uma pedra no meio do caminho do procurador, em compasso de espera.
Uma cena particularmente instigante coloca o personagem de Kuznetsov tentando achar a sala do procurador-geral. Existem escadas para todos os lados, elevadores que não param, funcionários marchando e entrando em portas que parecem irreais. Ele se perde nesse caos que deixaria até mesmo Kafka confuso, tentando entender qual caminho tomar e qual escada subir. A burocracia toma conta de tudo e parece não existir uma saída clara.
Já a desconfiança é o tom de Dois Procuradores. Com uma direção segura de Loznitsa, o longa-metragem coloca todos os personagens -- até mesmo Kornev -- em um espaço que se assemelha a um mundo de traição. Não apenas o espectador questiona em quem o procurador deve confiar, mas que nós, como audiência, devemos acreditar? Todos estão falando a verdade? Quem mente? Quem está pronto para dar uma punhalada no público?
Com isso, o longa-metragem russo se torna um retrato perfeito de uma época. Mais do que contar uma história, Loznitsa coloca o espectador dentro de um sentimento coletivo que imperava no mundo. Não entendemos apenas as motivações de Kornev, mas também seus medos, receios e sentimentos. Dois Procuradores se expande para além da tela e vira um exercício de tempo, de política e de sentimento, criando um senso de compartilhamento.
Mas, por fim, é preciso dizer: quem disse que Dois Procuradores é um filme apenas sobre a década de 1930? Loznitsa nasceu na antiga URSS, é crítico ao sistema e deixa isso tomar conta da história. A Rússia pode ter mudado -- de formação, de conceito, de liderança. Mas o que é mostrado ali na tela ainda existe, assim como o nazista perdido no museu do Holocausto em Zona de Interesse. Conexão de tempos e ideias. É por isso, enfim, que o cinema é uma arte tão importante: transcende fronteiras, ideias e, principalmente, o tempo.






