• Matheus Mans

‘Cama de Gato’ é livro inteligente e recheado de crítica social


Antes de falar sobre livros, vamos falar da vida de Kurt Vonnegut, autor e responsável pela obra Cama de Gato. Americano de origem germânica, Vonnegut cresceu vendo os horrores da guerra. Afinal, ele nasceu apenas cinco anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial e encarou o planeta em frangalhos. Já quando jovem, não escapou da 2ª Guerra Mundial e foi lutar pelos EUA. Foi capturado e preso pelos inimigo e presenciou o grave bombardeamento de Dresden.

Toda essa experiência de Vonnegut, que ainda depois se formou em Antropologia, viria a ajudar no desenvolvimento de algumas de suas histórias, como Matadouro 5 e Cama de Gato -- livro este que acaba de ser relançado no Brasil pela Aleph. No centro da história, acompanhamos a vida de um despretensioso escritor que decide traçar e compreender a vida de Félix Hoenikker, cientista já falecido e que foi o responsável por criar o conceito da bomba atômica alguns anos antes.

A partir daí, Vonnegut cria um ensaio existencial envolvendo ciência, humanidade, religião e, é claro, guerra. Da visão bem-humorada e extremamente afiada do autor, nada escapa. No livro, por exemplo, conhecemos a religião fictícia do bokonismo, cheia de tiradas sarcásticas e que nos faz pensar, em alguns momentos, em nossas próprias crenças e fés -- afinal, no que acreditamos e como passamos a acreditar nisso? Indo além, Vonnegut ainda critica até o casamento -- lembre que o livro teve sua primeira edição publicado ainda na década de 1960.

Há ainda, também, uma crítica mordaz à ciência. Afinal, a bomba atômica tinha acabado de sair dos laboratórios e outros cientistas já estavam procurando meios de criar novas formas de aniquilar a humanidade. É escancarada a apatia que existe na humanidade sobre a sempre aparente destruição do planeta. Ninguém faz nada: só se preocupa com religiões absurdas, com modos de destruição em massa, com casamentos de fachada e que não possuem consistência.

No entanto, os dois pontos altos da história estão em duas características: a condição dos humanos na Guerra e os personagens que comandam o conflito No ponto inicial, Vonnegut une o absurdo com traços de nossa realidade para mostrar até que ponto a sociedade é capaz de caminhar, adentrando em conflitos sem razão de ser. Que passagem maravilhosa é quando o protagonista conhece detalhes íntimos da vida de Hoenikker. Tudo ainda com uma escrita deliciosa.

Neste ponto, aliás, está o outro acerto que citei há pouco: os personagens que comandam o conflito. Grandes sátiras ambulantes, as personalidades do livro são recheadas de humor negro e do absurdo lírico de Vonnegut. Ao chegar ao final do livro, aliás, esta característica é ampliada -- e até chega a passar um pouco do limite -- em uma trama que une pessoas de diversas origens, mas que não deixam de lado esse humor natural da sociedade que todos carregam.

Em resumo, Cama de Gato é, como Roger Luckhurst definiu em seu livro sobre ficção científica, um "dar de ombros resignado, cheio de desespero cômico, à insensatez da modernidade". É um riso escrachado às nossas vidas e as coisas com as quais nos preocupamos. É, enfim, um livro para dar risada de nossa destruição. E, sem dúvidas, Vonnegut pode e consegue fazer isso de maneira magistral. É só relembrar, de novo, o que ele viveu.

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