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  • Amilton Pinheiro e Matheus Mans

Chitãozinho e Xororó se preparam para celebrar 50 anos de carreira


Quando o verso "quando eu digo que deixei de te amar" toca em algum recanto do Brasil, é quase impossível não sentir vontade de continuar a cantar o clássico sertanejo Evidências, interpretado por Chitãozinho e Xororó e composta por José Augusto e Paulo Sérgio Valle. É uma música que já transcendeu os adjetivos básicos que podem ser atribuídos a alguma canção e se consolida como um marco não só do gênero, mas de uma certa unidade nacional.

Evidências, porém, é apenas uma fração de um sucesso contínuo da dupla, que há quase 50 anos espalha os frutos de uma carreira bem-sucedida -- Fio de Cabelo, Galopeira e Sinônimos são outras canções que marcaram a longínqua carreira dos dois, além de ter um espaço garantido na história musical brasileira. "Somos gratos e temos muito orgulho da nossa carreira", diz Xororó em entrevista ao Esquina. "Estamos fazendo o que amamos e isso é muito bom. Como diz a nossa música, nós nascemos para cantar e é isso que nos move."

Desde que os dois irmãos começaram a vida profissional em 1970, porém, muita coisa mudou. Primeiro, os dois enfrentaram todo tipo de transformação no mercado fonográfico, indo do LP e chegando até o atual momento do streaming no cenário digital. Num microcosmo, o sertanejo também mudou: passou da música do interior do Brasil para algo mais pop e americanizado conhecido como Universitário. A dupla, porém, não reclama das mudanças.

"Nós temos o nosso estilo, o que acreditamos ser o melhor para nós", afirma Chitãozinho, fugindo de quaisquer polêmicas que o tema pode trazer, em entrevista exclusiva ao Esquina. "O sertanejo é um gênero que abraça tantos outros, a música brasileira é tão grande e tem espaço para todos. Há público para diferentes tipos de música e acreditamos que isso faz parte do Brasil."

Eles também passaram por vários cenários políticos -- começaram em meio a ditadura militar, viram o processo de redemocratização no final do século XX e, agora, presenciam as intensas mudanças no cenário político brasileiro. "A política é sempre um assunto delicado, mas com os acontecimentos recentes, com os processos em andamento, esperamos que continuem julgando os culpados e que seja uma eleição transparente", disse Xororó.

Outras mudanças, obviamente, são celebradas sem medo pela dupla "cinquentona", como a crescente participação de mulheres no gênero, historicamente dominado por homens. "Estamos muito feliz com o espaço que as mulheres estão ganhando", diz Xororó. "Já estava na hora disso acontecer. Temos cantoras talentosíssimas que só têm agregado ao sertanejo. Foi um prazer estar com algumas delas gravando o nosso DVD mais recente, Elas em Evidências."

Chitãozinho & Xororó, ainda que tenham dado mais espaço para músicas de levada mais pop em alguns de seus trabalhos mais recentes, porém, continuam a se curvar aos clássicos do gênero como aconteceu ao longo de toda carreira dos dois irmãos. Em 2015, por exemplo, a dupla se arriscou a cantar canções da Bossa Nova, como Águas de Março e Chega de Saudade, no belíssimo álbum Tom do Sertão. No comemorativo Sinfônico 40 anos, os dois irmãos uniram clássicos do sertão com uma orquestra arrepiante. É a essência da dupla.

Nos 50 anos de comemoração, a serem celebrados em 2020, também não vai falar reverências à história de Chitãozinho e Xororó. Além de um longa-metragem em homenagem aos dois -- chamado estranhamente de Coração de Cowboy --, a dupla já está fazendo uma turnê com o clássico maior, Evidências. Muito mais do que "música de karaokê", é uma canção que arrasta multidões e que se tornou um marco certeiro na carreira dos dois.

Por isso, é impossível não disfarçar a emoção quando a reportagem questiona a história da música e os seus shows celebrando o percurso da dupla até aqui. "Evidências chegou pra gente em uma fita cassete com umas 10 composições do José Augusto. Estávamos indo de Campinas para São Paulo no carro e colocamos para ouvir. Ficamos emocionados na hora", conta Chitãozinho. "Evidências é um sucesso, mas um show que traz seu nome não poderia trazer nada menos que outros sucessos. Em nosso repertório temos músicas como Sinônimos, Galopeira, Fio de Cabelo, No Rancho Fundo, Alô, Se Deus Me Ouvisse e muitas outras", finaliza o sertanejo.