• Matheus Mans

'Clube da Luta' é obra que merece ser revisitada


"Eu não quero morrer sem cicatrizes..."

Clube da Luta é um verdadeiro clássico da literatura mundial. Misturando violência extrema com uma escrita rápida e com uma intensidade psicológica inebriante, ele encantou o mundo todo e ficou ainda mais conhecido ao ser adaptado, em 1999, para as telonas. É um livro que faz com que vejamos em que lugar o homem pode chegar, causando intensa reflexão. Tudo envolto pela excentricidade da escrita de Palahniuk.

A história narra a vida de um personagem sem nome, que frequenta associações de pessoas com determinadas doenças, para se sentir mais vivo e para tentar curar seu problema de insônia. Então, no decorrer de sua monótona vida, o personagem acaba por conhecer Tyler, um rapaz niilista ao extremo e que acaba por causar um grande tumulto na vida do personagem ao criar o Clube da Luta.

"Tyler diz que eu ainda não estou nem perto de chegar ao fundo do poço. E que se não cair até lá, não poderei ser salvo.”

Comecei a ler o livro um tanto quanto receoso. Livros que alcançam um patamar muito alto de endeusamento, como é o caso de Clube da Luta, me dão um pouco de receio.

Normalmente, acabo por me decepcionar. Porém, com este livro foi totalmente avesso ao cotidiano. As palavras e o modo de escrita de Palahniuk me arrebataram logo nas primeiras linhas. Na verdade, eu me senti num verdadeiro Clube da Luta. Cada palavra, expressão e acontecimento da obra era um soco muito bem dado em minha cara. O autor consegue escancarar o mais cru e devastador do ser humano em poucos minutos. A leitura é intensa, deixando nós, leitores, presos na vida do personagem.

O que mais me chamou atenção em toda a obra foi a profundidade psicológica dos personagens. Aliás, o livro todo é um emaranhado de desvios psicológicos perturbadores. Porém, ao se analisar a individualidade de cada personagem e seu eu interior, percebe-se um mundo interessantíssimo. Palahniuk é um verdadeiro apresentador de desvios psicológicos, que nos fascina e nos entretém de uma maneira formidável.

Além do drama psicológico, a obra é uma verdadeira ode ao anarquismo. Praticamente tudo remete ao sistema sem leis, regras. Apenas uma ou outra, diga-se de passagem. E tudo isso é motivado pelo fato de se tratar de uma geração que não viveu nada de emocionante e que quer que algo interessante aconteça.

“Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito, muito revoltados.”

Devo fazer um adendo e falar um pouco sobre o final. Sem spoiler, claro, mas preciso falar. O desfecho da história é magnífico. Um dos mais curiosos que já tive a oportunidade de ler. A explicação da cena inicial (que é o final) é fabulosa. Nunca iria imaginar aquilo, assim como a maioria das pessoas, aposto.

“Tyler me arranja um emprego de garçom, depois Tyler está colocando uma arma em minha boca e dizendo que o primeiro passo para a vida eterna é que você tem que morrer.”

Enfim, Clube da Luta é uma obra sensacional e que deve ser lida por todos que procuram uma literatura profunda, de intensidade. E o que mais fascina: apesar disso tudo, não tem uma lição de moral. Não apresenta heróis ou a resposta da vida. Apenas retrata o ser humano em sua mais grotesca forma. Um livro que não vem acompanhado de uma reflexão embutida, mas que faz com que ela paire em nossas cabeças, aos poucos. E que toma conta de nós ao terminarmos de ler história tão formidável.

P.S.: Perdão, mas tive que violar a primeira e a segunda regra do Clube da Luta. Estou fora dele, mas feliz por saber que mais pessoas irão desfrutar de tão magnífico grupo.

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