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  • Matheus Mans

Coletânea de Rubem Braga potencializa importância do escritor capixaba


O Brasil tem a sorte de contar com um número expressivo de grandes cronistas. Seja na comédia de tipos humanos (Luis Fernando Verissimo, Mario Prata), passando por autores que conversam com o cotidiano das cidades brasileiras (Carlos Heitor Cony, Nelson Rodrigues, Marcelo Rubens Paiva) e outros que escrevem entre a fantasia e a realidade (Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar). Há um autor, porém, que consegue transitar entre esses subgêneros usando uma prosa macia, lírica e extremamente consistente: Rubem Braga.

Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Rubem Braga entrou no mundo da crônica logo cedo. Com um estilo afiado e extremamente observativo, o escritor, aos 15 anos, passou a contribuir com pequenos textos nos jornais capixabas Correio do Sul e Diário da Tarde, chamando rapidamente a atenção para si. Alguns anos depois, esse hobbie virou profissão e Rubem Braga, aos poucos e de maneira consistente no ramo literário, foi assumindo o merecido posto de principal e mais respeitado cronista brasileiro do século vinte.

Parte dessa história está impressa nos escritos de Rubem, que acabam de ganhar uma nova edição -- é a trigésima nona! -- pelo Grupo Editorial Record. Chamado de Rubem Braga: 200 crônicas escolhidas, o livro de quase 500 páginas faz um passeio nos diversos estilos do autor de maneira organizada. Ainda que seja mais interessante ler a obra de maneira aleatória, sorteando crônicas ao acaso, ela permite um acompanhamento linear em seções que recebem os títulos das principais narrativas do autor capixaba e que delimitam certos temas.

Dentre os duzentos textos selecionados, é possível encontrar de tudo: desde críticas inteligentes à figuras do passado (como em O Conde e o Passarinho, genial), passando por lembranças da própria infância de Rubem (Em Cachoeiro e Coração de Mãe) e memórias da cobertura da Guerra (A Menina Silvana e Cristo Morto) até chegar às belíssimas crônicas bossa-novistas sobre o Rio de Janeiro -- a clássica Ai de Ti, Copacabana é linda em qualquer releitura.

O grande destaque na coletânea são, no entanto, as crônicas despretensiosas que conversam com o cotidiano das cidades e de sua própria vida. Rubem, de escrita elegante, consegue transformar qualquer acontecimento num texto de deliciosa leitura. Aula de Inglês, Quermesse, História do Currupião e tantas outras que despertam sentimentos de melancolia e nostalgia. Isso sem falar em algumas fantasiosas, como a maravilha Eu e Bebu na Hora Neutra da Madrugada, que imagina um encontro do autor com o Diabo. É literatura da melhor qualidade.

Porém, há um detalhe minúsculo no livro que deixa tudo mais interessante: ao final de cada texto, é inserido o mês e o ano no qual ele foi produzido. Isso permite ao leitor imaginar e compreender, de maneira mais fidedigna, o que o escritor está vivendo -- se está ainda no começo de carreira, se já se mudou para o Rio ou, ainda, se está no final da vida. Neste último ponto, aliás, é difícil não sentir um nó na garganta com Os Sons de Antigamente que, ainda que escrito 13 anos antes de sua morte, tem um caráter premonitório assustador e emocionante.

Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas é um livro necessário para os que buscam se abastecer de boa literatura e boas crônicas. São textos rápidos, que podem -- e, a meu ver, devem -- ser lidos de maneira aleatória, entregando aos braços do escritor o desafio de achar e se deliciar com boas narrativas. E isso, com Rubem Braga, é quase certo. Afinal, seja nas histórias fantasiosas, sobre o cotidiano das cidades ou sobre figuras marcantes, o capixaba soube escrever como ninguém.