• Matheus Mans

Conheça 'Piquenique na Estrada', livro de ficção científica russa


Poucos sabem, mas a literatura russa é riquíssima. Além de Dostoiévski, Tolstói e Gogol, há nomes mais ocultos e não tão conhecidos do grande público, como Cholokhov, Pushkin e os irmãos Arkadi e Boris Strugatsky. Estes últimos construíram uma carreira singular, cheia de livros diversos e histórias que encantam pela genialidade provocativa e pelo bom senso de humor que rodeia suas tramas. Mas nenhuma obra ficou mais conhecida do que Piquenique na Estrada.

No livro, que foi recentemente reeditado pela Aleph no Brasil, acompanhamos uma espécie de sociedade distópica. Alienígenas visitaram o mundo -- são as chamadas Visitações -- e o resultado é assombroso. Mesmo sem manter nenhum tipo de contato com pessoas ou com governos, o resultado é de dúvida. Afinal, as visitas alienígenas criaram zonas estranhas e cheias de objetos vindos do espaço, e ninguém sabe o que acontecerá em seguida. Eles irão retornar?

Assim, os Irmãos Strugatsky criam uma história centrada em Redrick Schuhart -- ou apenas Red --, um homem que trabalha indo para as zonas alienígenas para roubar produtos vindo do espaço e revender, no mercado negro, para pessoas com interesses obscuros em itens que elas nem ao menos sabem para o que servem. Para isso, o livro é dividido em quatro partes e, em cada uma dela, conhecemos um pouco mais da vida de Red e, principalmente, deste novo mundo.

O grande ponto alto da história, porém, é a genialidade dos autores. Assim como o cineasta Denis Villeneuve construiu uma história de alienígenas para falar sobre comunicação, os russos criaram essa interessante ficção científica com um único propósito: mostrar os pontos negativos da URSS. Afinal, veja só: o livro foi publicado em 1977, quando o país estava num momento complicado -- após o caos de Stalin e Khrushchev, o País entrava na Era da Estagnação.

E este momento é claramente refletido nas páginas do livro Piquenique na Estrada. Os Strugatsky conseguem mesclar uma boa ficção científica, cheia de detalhes, neologismos e uma criação de mundo extremamente particular. Assim, é possível fazer duas leituras de um mesmo livro: a ficção científica, cheia de detalhes e encantadora; e uma leitura histórica, na qual os dois autores, corajosamente, tecem severas e divertidas críticas ao sistema político da URSS.

Além disso, em relação à aspectos técnicos e literários, o livro é uma sucessão de acertos. O personagem principal, Red, é muito bem construído e um recurso narrativo faz com que acompanhemos sua evolução através dos anos, sem perder a identidade muito bem criada. Há, também, a boa sacada de dividir a história em quatro partes, que alteram a lógica do livro e até a forma de contar a história -- na primeira, por exemplo, o personagem narra em primeira pessoa.

Com isso, Piquenique na Estrada é, sem sombra de dúvidas, uma das ficções científicas de maior impacto do século passado. Afinal, não temos apenas uma boa história de aliens ou uma distopia com significados rasos: há, aqui, um verdadeiro mergulho na mentalidade das pessoas que viviam em países como a União Soviética na década de 1960 e 1970. Você, sem dúvidas, não pode perder esse livro. Além de uma aula de literatura, é uma amostra da nossa história.

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