• Matheus Mans

Crítica: ‘1945’ é diferente olhar sobre a guerra, apesar de problemas técnicos


O ano, como o próprio título diz, é 1945. Os suspiros finais da Segunda Guerra Mundial são ouvidos acompanhados com o silvo das bombas atômicas detonadas pelos Estados Unidos no Japão. Enquanto isso, os países afetados começam a se reorganizar e a encarar toda a realidade que se descortina. É nesse cenário que se insere o longa-metragem de origem húngara 1945, que se detém nos efeitos do fim da guerra num pequeno e pacato vilarejo do interior.

A trama do filme, assinada pelo estreante Gábor T. Szántó e pelo próprio cineasta Ferenc Török (Moszkva tér), começa um tanto confusa dentro deste cenário. De um lado, vemos dois judeus chegando ao vilarejo, de trem, com um suposto carregamento de perfumes. Do outro, vemos a cidade em polvorosa. Afinal, estão organizando o casamento do tabelião do local -- que age como o prefeito --, mas ficam nervosos com a presença da dupla misteriosa que desembarca.

Nos primeiros quarenta minutos de projeção, então, o espectador fica no escuro: vê reações exageradas de moradores com a chegada dos judeus, mas os motivos são nublados. Não há explicações claras, nem um contexto histórico de que a Hungria apoiou o Eixo, liderado pela Alemanha nazista. Há apenas o vilarejo em evidência e as diversas situações que são consequência do simples ato do desembarque de dois judeus no trem. Boa premissa dos dois roteiristas.

Com cuidado, então, a trama vai sendo revelada -- sem exposição em excesso -- e os seus personagens vão tomando as mais diversas atitudes, criando um bom estudo humano sobre a reação de pessoas em situações de estresse, sobre a culpa -- que a própria Hungria sente desde a SGM -- e as tristes consequências do mal. A atuação de Péter Rudolf (Üvegtigris) está sob medida e é a alma do longa-metragem. Ainda não consegui compreender como ele não está estampado nos cartazes oficiais do filme, dando lugar para a fraca e apagada Dóra Sztarenki.

A ideia central do filme também, quando revelada, é muito boa. Original, inesperada e muito ousada, ajuda a dar um outro viés para a Segunda Guerra que já coleciona tantos ângulos -- o dos heróis (A Lista de Schindler), dos nazistas (Lore) e dos personagens e momentos históricos que a compõem (A Queda, Dunkirk e por aí vai). É um cinema autoral e que merece espaço. Destaque também pra fotografia, em preto e branco, que realça o sentimento da época.

O único problema está na própria limitação técnica dos cineastas, que contam com alguns momentos a la novela mexicana. Há socos mal coreografados, cenas teatrais demais para a tela grande e alguns vazios narrativos que não fazem muito sentido dentro daquela história, servindo apenas para completar os 90 minutos da projeção e dando um ar novelesco para a história. Isso acaba tirando um pouco da força fílmica de 1945, que perde chance de entrar com destaque nas estreias da semana.

Há também problemas de clichês muito usados no cinema e que acabam deixando a trama mais genérica em alguns pontos, como o corte acidental sofrido pelo vilão enquanto faz sua barba ou, então, a luz contrária que deixa seu rosto no escuro. Não precisava, mas dá para dar um desconto.

Ainda assim, esta produção húngara merece destaque por sua originalidade, criatividade e ousadia -- sem dúvidas, não foi fácil apresentar esta história em solo húngaro. Merece um bom destaque em sua estreia no Brasil nesta quinta-feira, 5. É importante saber os outros lados de uma história que se torna cada vez mais presente no cinema e, assustadoramente, mais próxima da realidade.

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