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  • Matheus Mans

Crítica: '500 Mil Quilômetros', da Netflix, é drama indiano sobre tempo e velhice


Incrível como o cinema indiano conta com dois tipos de produção que trafegam quase que em polos apostos. De um lado, estão aqueles musicais coloridos de Bollywood, com danças e coreografias deslumbrantes, que cativam o povo indiano. Do outro, estão dramas intimistas sobre a vida na Índia, com personagens demasiadamente reais e com problemas profundos.


Felizmente, apesar de algumas qualidades daquele primeiro grupo, o novo 500 Mil Quilômetros se encaixa nesse tipo de drama. Novidade da Netflix desta sexta-feira, 7, o longa-metragem de Ivan Ayr (do elogiado Soni) conta a história de Ghalib (Suvinder Vicky) um caminhoneiro em um momento complicado. A esposa faleceu repentinamente, enquanto o emprego está na beira.


Afinal, as dificuldades da idade já começam a surgir. O protagonista sente dores nas costas, já não consegue realizar seu trabalho pelas estradas da Índia com a mesma tranquilidade de outros tempos. Enquanto isso, um jovem rapaz aprendiz de sua empresa começa a causar dores de cabeça em Ghalib. Ele, com razão, está preocupado em perder seu emprego para o novato.

Ivan Ayr não tem a delicadeza necessária, em muitas cenas, para mostrar essa velhice, e consequente invisibilização do protagonista, no mercado de trabalho -- a própria história dos 500 mil quilômetros rodados com o caminhão é uma figura de linguagem pouco sutil, assim como outras pequenas histórias ao longo da narrativa. Poderia ser um problema falta ao filme.


No entanto, apesar desses deslizes, o longa-metragem não acaba caindo em um dramalhão pouco sutil. Pelo contrário. Compensando com uma atuação marcante de Suvinder Vicky, lembrando bons momentos de Irrfan Khan em longas como The Lunchbox, o filme traz muito nas entrelinhas. Pelos olhares do ator, seus gestos e sua forma de encarar o trabalho do dia.


O filme, assim, acaba sendo uma produção marcante sobre mercado de trabalho, medo de ser esquecido, velhice. Em resumo, sobre o tempo. É um filme que, apesar desses deslizes de roteiro, escrito pelo próprio Ivan Ayr, encontra formas de fazer sua mensagem viajar com a sutileza que precisa. Lembra um pouco o argentino Las Acacias, com toda dor e transformação.


500 Mil Quilômetros, assim, é uma história introspectiva, com um personagem aparentemente duro de ser entendido e compreendido -- seus gestos são grosseiros, suas falas são raras. Mas, no entanto, essa ausência também diz muito sobre suas emoções, suas histórias, suas dores. É um filme forte, surpresa do cinema indiano na Netflix, e que enriquece a discussão sobre tempo.

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