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  • Matheus Mans

Crítica: '9 Dias em Raqqa' é bom filme sobre reconstrução da Síria


Geralmente, documentários sobre o Oriente Médio envolvem tragédias. Falam sobre mortes, bombardeios, violência. Por isso é tão interessante a experiência com 9 Dias em Raqqa, longa-metragem que faz parte da programação oficial do É Tudo Verdade 2021. Dirigido por Xavier de Lauzanne, a produção francesa acompanha os nove dias de estadia de uma escritora em Raqqa.


A cidade síria, que era considerada capital do Estado Islâmico, foi completamente destruída na passagem dos terroristas. Agora, tempos depois da expulsão do EI, acompanhamos a prefeita Leila Mustapha na reconstrução desse lugar. Ela, com uma personalidade forte e muito decidida de seus objetivos, quer refazer o lar das pessoas que amam Raqqa, assim como ela ama.


Dessa forma, ainda que 9 Dias em Raqqa fale sobre destruição, seu foco está na reconstrução. Na esperança. No retorno. Ao longo de quase 90 minutos, acompanhamos principalmente o dia a dia da prefeita nessa cidade, em um processo de reencontrar esperança no restauro de uma praça, na ressignificação de um monumento. Aqui, apesar da destruição no cenário, a vida volta.

É difícil não se encantar com Leila, assim como ficar fascinado pela força daquela região. A cidade passou por momentos realmente difíceis e ver essa reconstrução traz um sopro para além das fronteiras da Síria. É um movimento de resistência, uma forma de encontrar possibilidades e seguranças de que o mundo não precisa viver apenas em polos extremos.


No entanto, fica a sensação de que 9 Dias em Raqqa não fala exatamente sobre o que parece ser o central da história. A jornada dessa jornalista e escritora francesa, que é a propulsora da narrativa, é bastante desinteressante -- um risco inicial, tão alardeado, não parece estar presente. Além disso, a prefeita é interessante, mas queria saber mais sobre os cidadãos de lá.


Uma cena final, em que vemos moradores de Raqqa sorrindo e andando alegres pela cidade, é o ápice do filme. É o momento mais rico do longa-metragem. Deu vontade de saber mais sobre aquelas pessoas. O foco exagerado na prefeita, por mais forte e interessante que ela seja, não é o bastante. Seria mais interessante se Xavier de Lauzanne fosse além em suas pretensões.


Dessa forma, 9 Dias em Raqqa é um bom filme, mas que poderia ter ido muito, muito além. Há muita vida lá fora, em Raqqa. No entanto, sem dúvidas, é um sopro de esperança acompanhar uma história no Oriente Médio que, apesar de partir da destruição, não tem isso como o ponto de encerramento. Aqui, o foco é a esperança. E não há nada mais urgente em tempos modernos.

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