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  • Matheus Mans

Crítica: 'A Crônica Francesa' é Wes Anderson em descontrução


Qualquer um que assistir ao filme A Crônica Francesa, disponível na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vai identificar na hora que é uma produção assinada por Wes Anderson. Não há dúvida alguma disso. Estão lá as cores, a simetria, os personagens típicos e por aí vai. No entanto, ainda assim, é um longa diferente. É a desconstrução de Wes Anderson.


Afinal, o filme começa com uma premissa similar de outras produções do cineasta: várias histórias distintas, mas conectadas por um fio narrativo. Aqui, no caso, acompanhamos a edição de uma revista sobre cultura, comportamento e variedades. Cada pequena história, cada crônica, é um pedaço do filme. No meio disso, está o editor (Bill Murray) captando a essência disso.


Na primeira crônica de A Crônica Francesa, um presidiário (Benício del Toro) faz sucesso com quadros que retratam sua musa, uma policial (Léa Seydoux). Na sequência, uma jornalista (Frances McDormand) se envolve emocionalmente com um jovem ativista político estudantil (Timothée Chalamet). Por fim, a história de um resgate gastronômico com o ator Jeffrey Wright.


São histórias que não se conectam aparentemente por nada senão pela edição do tal folhetim. No entanto, A Crônica Francesa tem algo a mais unindo essas histórias todas: a desconstrução. A cada história contada (incluindo um prólogo com Owen Wilson), Wes Anderson estilhaça algo. O jornalismo, a polícia, o ativismo político, as relações humanas, a arte... Tudo ali é destroçado.

Afinal, nessas histórias de narrativas confusas, cheias de voz em off, há muita ironia. Em determinada passagem, por exemplo, Adrien Brody (O Pianista) tenta vender uma das obras do tal presidiário para dois idosos. É uma arte abstrata. Será que é boa? Para isso, ele mostra um desenho quase infantil que o artista fez com uma bituca de cigarro. E aí vem: o que é a arte?


O problema, apesar de algumas boas sacadas como essa provocação, é que o próprio filme parece estar em desconstrução. Ele vai provocando, sentindo os limites do cinema. Brinca com a fotografia, por exemplo, e até com a participação de alguns grandes atores -- Willem Dafoe, Bob Balaban, Christoph Waltz, Saoirse Ronan e Elisabeth Moss são apenas coadjuvantes de luxo.


Fica uma sensação estranha de falta de rumo, de excesso, sem razão de ser. Até mesmo a direção e a narrativa vão perdendo a força, causando uma clara perda de ritmo. A primeira história é excelente, a segunda mediana, a última fraquíssima. A Crônica Francesa parece estar perdido em um mar de intenções e de desconstruções. O foco do filme se perde, se desgasta.


Chegamos ao final sabendo que vimos um filme simpático e divertido, mas e aí? O que exatamente A Crônica Francesa nos trouxe? Fica a sensação que, desde Moonrise Kingdom, Wes Anderson está em uma desconstrução em amplo crescimento, cansaço. Fica um filme um pouco apático demais e sem razão de ser. Pena. Mais um caso de filme bonito visualmente, mas vazio.


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