• Matheus Mans

Crítica: 'A Divisão' é boa reciclagem a partir de série nacional


Há algum tempo, elogiei a série A Divisão aqui no 'Esquina' e fiz uma matéria longa sobre a produção lá no Estadão. Como ressaltei em ambos os textos, a série da Globo impressionava pela violência quase desmedida, a boa qualidade de produção e a forma sem filtros de encarar a rotina policial no Rio de Janeiro e que, não surpreendentemente, conversa com os dias de hoje.


E felizmente, todos esses benefícios estão reproduzidos no filme A Divisão, longa-metragem que condensa a série para chegar às telonas do cinema. Afinal, é claro, a trama é a mesma: dois policiais (Silvio Guindane e Erom Cordeiro) de personalidades distintas precisam colaborar para reprimir uma onda de sequestros que afeta a cidade maravilhosa e começa a causar pânico.


A partir disso, os diretores Vicente Amorim e Rodrigo Monte versam sobre violência policial, lealdade, política e muitas outras coisas que influenciam a forma de se combater crime no País.


Como dito anteriormente, há qualidades que saltam à tela e fazem com que A Divisão não seja apenas mais uma história sobre policiais cariocas. Há, aqui, uma violência que fica no limite do choque e, principalmente, é perceptível como os roteiristas acertaram na hora de criar e quebrar expectativas, com algumas reviravoltas e transformações interessantes na narrativa.


A fotografia, assinada pelo talentoso Gustavo Hadba (Faroeste Caboclo, O Grande Circo Místico), traz um tom amarronzado que dá o tom da história. Mas, principalmente, há de se destacar a qualidade da cinematografia de Habda ao retratar o próprio Rio de Janeiro, sempre com um aspecto claustrofóbico e evitando colocar os famosos pontos turísticos da cidade ali na telona.

Cordeiro (Paraísos Artificiais) e Guindane (Vai que Cola 2: O Começo) completam os pontos positivos acerca da produção. Estão bem em seus personagens e convencem com seus tipos e manias. Além dos dois, também há de se destacar as atuações de Marcos Palmeira (Velho Chico) como um dos delegados; e de Natália Lage (Um Homem Só) como uma policial complicada.


No entanto, é claro, nem tudo são flores. A Divisão sofre na coesão narrativa, já que é uma série condensada em cerca de duas horas. Algumas coisas demoram a fazer sentido, outras não fazem sentido em momento algum. Além disso, algumas participações são descartáveis dentro da lógica do longa-metragem, como a do onipresente Augusto Madeira como um político.


Por fim, fica claro como algumas coisas foram simplificadas demais para caber no longa e não possuem o aprofundamento necessário. Assim, é quase impossível não perceber os estereótipos que avançam sobre a narrativa, como o policial bom e mau, o "duas caras", o político sacana, o traficante que zela pelo bem da comunidade e outras coisas do tipo, já batidas.


Dessa forma, dá para dizer que a série é bem superior -- por isso, se quiser entrar nessa história, vá por esse caminho. Há mais tempo para aprofundamento, os estereótipos são menos evidentes e não há tantas tramas "sobrando". Mas o filme tem seu lado positivo. Boa produção, quebra de expectativa, história empolgante. Vale o ingresso e a diversão na sala de cinema.

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