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  • Matheus Mans

Crítica: 'A História do Olhar' é documentário sensível sobre tudo que vemos


O documentário A História do Olhar começa com o cineasta Mark Cousins deitado em sua cama, aparentemente pouco depois de acordar. Está sem roupas, o ambiente tem pouca iluminação. Aos poucos, ele vai deixando clara a sua intenção: no dia seguinte fará uma cirurgia para reparar uma catarata e, nos preparativos, começa a questionar sua própria visão. O que vê? O que viu?


A partir disso, faz uma espécie de tratado. Simples, sem muita enrolação, sem nenhuma sequência exagerada. Sempre de sua cama. Cousins vai mostrando como a visão é algo importante em nossa rotina, em nossas vidas -- assim como sua falta também afeta olhares e percepções. Fala do que já vimos, do vemos e do que vamos ver, em uma só reflexão.


A História do Olhar, assim, logo se revela como uma trama de intenções profundas, mesmo sem qualquer tipo de complicações por parte de Cousins. Ele lê tuítes de seguidores falando sobre o que a visão representa para eles, com algumas reflexões realmente poéticas e profundas; relembra experiências visuais marcantes que teve; pensa o que quer ver antes de sua cirurgia.

O olhar é o protagonista do filme, com Cousins (esse documentarista de mão cheia, de filmes e séries como A História do Cinema: Uma Odisseia e o poderosíssimo Os Olhos de Orson Welles) sendo o ponto central da reflexão, a pessoa que traz as provocações, as imagens, os tons, as cores. Aos poucos, Cousins sai de cena e coloca nós, espectadores, no papel da provocação.


A poesia, assim, entra. E o filme, a partir dessa premissa simples de um homem papeando com a audiência deitado em sua cama, cresce. Engrandece. Mais do que um blá-blá-blá sem fim, com Cousins sofrendo com sua condição, vemos na verdade algo que vai além. A poesia, como sempre, serve como o ponto de transformação, em que o cinema sai do óbvio e parte pro belo.


O único ponto que pode provocar debates sobre sua qualidade, principalmente por ser muito fora da curva e sem muita relação com o coração do filme, é o final. Cousins faz uma certa experimentação sobre tempo e o reflexo da visão em sua vida olhando pra frente, pro futuro. Há certa beleza nisso, sim, mas tem algo de estranho, de pouco coeso. Parece que faltou algo.


Mas tudo bem: A História do Olhar é um filme que sabe como trabalhar as emoções, as histórias, os sentimentos, as sensações. É um documentário que sabe como colocar a poesia no dia a dia, no banal. O filme faz, então, algo que só o cinema consegue fazer: faz com que, depois de pouco mais de um hora, olhemos para o mundo com outros olhos, outros filtros e com novas emoções.

 

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