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  • Bárbara Zago

Crítica: 'A Melhor Escolha' diverte, mas só deve emocionar público dos EUA


Desde o final da Segunda Guerra, os Estados Unidos têm buscado investir em forças armadas, destacando-se como uma das principais potências no segmento militar. O poder bélico norte-americano exerce um papel tão relevante no País que acaba por influenciar sua cultura, naturalmente. Lembro-me da primeira vez que vi militares atravessando um aeroporto, em Dallas, no Texas; as pessoas interrompiam suas atividades para aplaudi-los. E eu não entendia bem o porquê. Na realidade, até entendia, mas não estava acostumada com aquilo. Principalmente por serem pessoas aleatórias. Qual o sentido de aplaudir um soldado sem ao menos saber seu nome? Nos Estados Unidos, a pergunta correta seria "Por que NÃO aplaudi-los?"

Em qualquer cidade norte-americana, militares são pessoas de alto prestígio. Não cabe a mim estabelecer se isso está certo ou não, e tenho consciência disso. Mas quando me deparo com algum filme patriota, que constantemente ressalta a importância da guerra e do exército, dificilmente sou conquistada por ele. Exemplo disso é o próprio Sniper Americano, longa-metragem de Clint Eastwood indicado ao Oscar em 6 categorias, em 2015. O filme tem lá seu mérito, mas se distancia tanto da cultura brasileira que acaba por tornar-se quase que obsoleto. O mesmo acontece com A Melhor Escolha.

Last Flag Flying, seu título original, mostra Larry 'Doc' Shepherd (Steve Carell), um antigo médico da Marinha que propõe-se a encontrar dois companheiros, ex-fuzileiros navais, de sua época do Exército, Sal (Bryan Cranston) e Mueller (Laurence Fishburne). Filme dirigido e produzido por Richard Linklater (de Boyhood), não tem muita história além disso. Possui um aspecto bem mais contemplativo, ainda que seja um longa que conta com muitos diálogos. O grande ponto do filme é justamente o sentimento patriota, coisa que se percebe pelo próprio título original e pôster, já que ambos fazem questão de dar destaque à figura da bandeira, símbolo tradicional do Patriotismo.

O primeiro ato do filme é um pouco mais movimentado do que seu restante, pois começa a desenvolver os personagens principais, bastante estereotipados. Larry encontra Sal em um bar: não somente é proprietário do local, como o ex-fuzileiro é alcoólatra e parece não ter tomado grandes rumos na vida. Os dois vão em busca de Mueller, homem que agora se tornou padre, apesar de usar muitas drogas e transar com muitas mulheres durante sua juventude. Por serem tão opostos, constantemente percebemos que cada um se configura como anjo e diabo de Doc, apelido de Larry na época, de forma bastante cômica. A dinâmica consiste até o final da história: Mueller louvando à Deus e Sal rebatendo-o com ironia, mostrando não dar valor à religião.

Com 125 minutos de duração, A Melhor Escolha é um filme de diálogos e patriotismo. Deixando a cultura norte-americana de um lado por um momento, os diálogos são sua maior qualidade e defeito. A melhor cena de todo o longa acontece durante uma conversa entre os três personagens principais. Linklater, por dar uma certa liberdade aos atores durante as filmagens, conseguiu gravar a cena mais natural que já vi no cinema. O personagem de Bryan Cranston faz uma piada que não é lá essas coisas, mas a risada que Steve Carell dá já vale o filme todo. Quem está rindo ali não é apenas Larry, seu personagem, mas o próprio ator. Essa naturalidade confere ao filme uma harmonia muito importante, compensando seu caráter um tanto quanto cansativo em alguns momentos.

Apesar de enfrentar dificuldades na hora de estabelecer um vínculo com o público, majoritariamente por questões culturais, A Melhor Escolha possui suas qualidades. O personagem de Steve Carell conseguiu transmitir a dor de perder alguém, ao mesmo tempo que Bryan Cranston e Laurence Fishburne realmente entraram no papel, dando vida aos estereótipos de maneira divertida.