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  • Tamires Lietti

Crítica: 'A Menina Índigo' veio para colorir o cinema nacional


Eu não sei se todos os que escrevem resenhas da sétima arte se sentem assim, mas eu acredito ser uma tarefa muito difícil dissertar sobre filmes que nos tocam visceralmente. Afinal, o que é visceral para mim, pode não ser para você, certo? Mas se tratando de A Menina Índigo, acho difícil que alguém não se sinta extremamente tocado pela nova obra de Wagner de Assis.

Caso você não se lembre, Wagner de Assis é o diretor de Nosso Lar, filme brasileiro de 2010 que traz uma forte carga espiritual em seu roteiro. A nova produção do diretor trata da espiritualidade de forma muito mais leve, subjetiva, divertida e inocente; uma inocência que me arrancou lágrimas discretas durante a sessão. A Menina Índigo é um abraço quentinho para aqueles que ainda acreditam no amor e no lado bom de todos nós.

Não creio ser necessário falar muito sobre a história central do filme. Sofia, interpretada pela talentosíssima Letícia Braga, é uma garotinha de 7 anos, filha de pais divorciados e com um perfil índigo. Fiquem de olho nessa pequena atriz! Letícia é genial, desenvolta, cômica e absurdamente expressiva. Atriz e personagem, ambas apaixonantes.

Mas bom, vamos lá. Para quem não sabe, as crianças índigo são uma crença. Para os que acreditam na existência dessa personalidade diferente, os pequenos índigos são seres com habilidades e mentes especiais, quase que mágicas, com poderes transcendentais. A capacidade intelectual, social e ética dessas crianças são muito mais profundas do que a de um ser humano “normal” e, por isso, elas são vistas como seres que são capazes de transformar o mundo e implantar um estilo de vida mais puro na humanidade, guiado por energias do bem. Seria perfeito, não seria?

Letícia entrega a nós uma garotinha índigo apaixonante, que veio de encontro com tudo que creio. Em tudo que insisto em crer, na verdade. Mesmo com vários 7x1 na vida, eu sigo acreditando em energias do bem. Quem nunca, né? E acho que foi por isso que A Menina Índigo me impressionou tanto.

No filme, Sofia é capaz de curar fisicamente as pessoas de suas dores e doenças, mas sua magia vai além daquilo que é físico e meramente biológico: ela colore a todos em sua volta, com amor e pureza. E digo colorir também literalmente, já que a estrela do filme é completamente apaixonada por tintas e artes abstratas. É através das cores que Sofia expressa todo esse lado desconhecido dentro dela mesma e aí vejo a analogia genial proposta pelo filme: a vida e as pessoas precisam de mais cores e precisam se deixar colorir quando as “Sofias” da vida cruzarem seu caminho.

Murilo Rosa e Fernanda Machado não deixam a desejar no papel dos pais da garotinha. Fazia tempo que não via Murilo atuar e me surpreende a naturalidade e carisma que ele segue mantendo. Mas, ainda que o elenco seja também um ponto fortíssimo no filme, a cena toda é de Sofia. Ela é a personagem mais incrível que conheci nas telonas nos últimos anos.

A sensibilidade dela é completamente apaixonante e a crença da pequena em um mundo melhor e na “cura” das pessoas que estão “doentes” é emocionante, não só para os personagens do filme, mas também para os espectadores da vida real. Sofia é a personificação da expressão “fé na humanidade”, com uma pitada de fofura e com a doçura de uma criança extremamente cativante.

O que mais me impressionou e me emocionou em A Menina Índigo foi a sabedoria que Wagner teve para manter a analogia das cores por todos os diferentes momentos do roteiro. As cores de Sofia são, na verdade, seu amor e sua energia poderosa num modelo de mundo onde as pessoas são boas -- ou seja, coloridas. Vemos o pai de Sofia, uma vez atormentado, tomando um banho de tinta. Vemos o fraco vilão do filme, Eriberto Leão, que faz o papel de “amigo da onça”, sendo manchado por uma caneta azul. Adivinha o tom? Azul índigo. Mas bom, se eu contar todos, perder a graça. São muitos os momentos do filme que podemos ver as pessoas saindo do preto e branco e indo para o colorido de Sofia e todos eles, sem exceção, são muito emocionantes.

Para finalizar, em uma intertextualidade talvez não proposital, posso falar de A Menina Índigo com uma cena do próprio longa, talvez a minha preferida e a que tenha feito as lágrimas começarem a brotar. Nela, Sofia senta no colo do pai para lhe contar uma história que resume bem toda a essência do filme cinco estrelas que trouxe um novo tom para o cinema nacional.

“Era uma vez um planeta. Nele tinha uma festa, a festa das sombras. A festa era feita para elas deixarem de serem sombras, mas nem todas conseguiam. Então, às vezes, era preciso acender umas luzinhas.”

EXCELENTE