• Matheus Mans

Crítica: 'A Mula' é mais um emocionante filme de Clint Eastwood


Nos últimos anos, Clint Eastwood tem apresentado uma filmografia inconstante. Apesar de ter os grandiosos Os Imperdoáveis, Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos no currículo, suas recentes apostas transitaram entre bons e medianos. No primeiro caso, por exemplo, Sully e Jersey Boys. No outro, os terríveis Sniper Americano e 15h17: Trem para Paris. Agora, porém, ele consegue recuperar a sombra que circundava seu trabalho com o emocionante, lento e impactante A Mula, no qual também faz sua despedida como ator -- ainda que essa despedida já tenha ocorrido em Curvas da Vida, há 7 anos.

Se dessa vez o adeus se concretizar, porém, será em grande estilo. Assim como em Curvas da Vida e Gran Torino, Clint deixa a velhice transparecer e, de certa forma, tomar conta do personagem. É bonito ver um ator como ele, já com tantos anos de idade e experiência nas costas, se redescobrir dessa maneira. Ainda mais quando é aproveitado por uma trama interessante -- pra dizer o mínimo. Nela, acompanhamos a história de Earl (Clint), um idoso que se vê sem função após ser obrigado a se desfazer de sua plantação de lírios. Como saída, acaba virando "mula" de um cartel de drogas.

É a deixa para um desenvolvimento duplo de roteiro. Por um lado, o frescor emocionante desse idoso que trocou a família pelo trabalho e, do nada, precisa se reaproximar da esposa (Dianne Wiest), da filha (Alison Eastwood, filha do cineasta na vida real) e da neta (Taissa Farmiga, cada dia melhor). Do outro lado da balança, o idoso e traficante precisará se preocupar com a relação que tem com os criminosos, em especial com o chefão interpretado por Andy García (Mamma Mia); e com os policiais que entram no seu encalço, vividos pelos ótimos Bradley Cooper, Michael Peña e Lawrence Fishburne.

A trama, escrita por Nick Schenk (O Juiz, Gran Torino), possui a característica desses outros filmes do roteirista: é lenta, com um desenvolvimento que se revela nas entrelinhas, e que parece não estar chegando a lugar algum. E aí, quando o público menos espera, boom: acontece uma série de acontecimentos insperados e o filme engrena. Não é o melhor trabalho do escritor, visto que a trama dos policiais não é bem desenvolvida e há alguns arcos expositivos demais -- principalmente no começo, quando o personagem de Clint verbaliza coisas desnecessárias. Mas é uma boa história.

A direção de Eastwood parece acompanhar sua vagarosidade na frente das câmeras. E isso poderia ser péssimo se o cineasta norte-americano não tivesse tanto estilo. Ele sabe quando incluir uma boa piada, um momento de descontração, algo mais leve -- aliás, o filme é surpreendentemente engraçado e divertido. Isso ajuda a criar um ritmo mais ágil e interessante, apesar do estilo calmo de Eastwood. Sua aparição na frente das câmeras também ajuda a alavancar a trama. Ele sabe o que está fazendo e como fazer. Mais do que um grande cineasta, é um excelente ator. Uma pena a aposentadoria.

O resto do elenco não possui tanto material quanto o protagonista -- na verdade, parece que apenas Dianne Wiest (Hannah e suas Irmãs) possui um arco de desenvolvimento. Ela, aliás, injeta uma alta dose de emoção para a trama e, em determinada cena, deve levar o público às lágrimas. Grande atriz. Cooper (Nasce uma Estrela), Peña (Homem-Formiga) e Fishburne (Matrix), infelizmente, são pouco aproveitados -- culpa do roteiro, já que Eastwood tenta injetar mais emoção em algumas cenas com o trio. Farmiga (A Freira) mostra que é uma atriz pronta para drama, comédia, terror. Cada vez melhor.

A Mula não é o melhor trabalho de Eastwood na direção (continua sendo Os Imperdoáveis e As Pontes de Madison, para outros), nem de atuação (continua sendo Gran Torino). Nem tem um roteiro excepcional. Mas, ainda assim, é um filme que emociona pelo seus significados dentro e fora da telona, fazendo qualquer um se emocionar com essa possível despedida de atuação de um dos maiores astros da história do cinema moderno. É uma história real, que traz um olhar diferenciado para o que se vê sobre os Estados Unidos no seu próprio cinema. Ótimo drama, bom filme.

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