• Bárbara Zago

Crítica: 'A Pé Ele Não Vai Longe' é história trágica, mas bem humorada


A Pé Ele Não Vai Longe tinha tudo para ser um filme trágico, dramático, pesado. Afinal, ele conta a história de John Callahan, polêmico cartunista norte-americano que, após um acidente de carro, perdeu o movimento das pernas. Mas ainda que tenha um início triste, e uma história ainda mais sofrida, o cineasta Gus Van Sant (Elefante e Gênio Indomável) vai na contramão das expectativas e entrega ao público um filme totalmente bem humorado.

É característico do diretor apresentar obras que possuem um tom motivacional, porém sem ser apelativo ou pedante. Como era de se esperar, seu novo filme não é diferente. Mesmo que sua proposta seja se aprofundar nas inúmeras camadas do protagonista, o filme, essencialmente, trata do perdão e da recuperação após momentos difíceis – no caso, a constante embriaguez de Callahan. Com uma atuação impecável de Joaquin Phoenix (Ela e Maria Madalena), é possível ter empatia pelo personagem ao mesmo tempo em que se permite reconhecer seus erros.

A narrativa não é linear, trazendo um pouco de confusão no começo, mas que facilmente é esclarecida ao longo da história. Ao propor esse tipo de cronologia, o diretor também evita que o filme se torne algo melancólico. Na maioria das cenas, Callahan aparece junto ao seu grupo de apoio, contando sobre sua recuperação em relação ao alcoolismo, ao mesmo tempo em que se vê obrigado a escutar história e opiniões alheias. É durante um desses encontros, inclusive, que o filme apresenta uma nova perspectiva ao público: a de Callahan como não sendo uma vítima.

Igualmente impecável é a atuação de Jonah Hill (Lobo de Wall Street) como Donnie, mentor e líder de Callahan. É ele quem comanda o grupo de apoio, ora sendo totalmente ríspido, ora mostrando-se como um ombro amigo. Apesar de ter uma participação menos intensa que Phoenix, é seguro dizer que ele faz toda a diferença no filme. Responsável por um humor também ácido, ele não permite que o grupo seja um lugar de lamentações, mesmo que essa seja a tendência.

O traço único de Callahan com uma temática que se arrisca a fazer humor com racismo, sexualidade e até mesmo sua própria deficiência física, é explorado no filme, porém de forma imparcial. Em momento algum o filme tenta convencer o espectador de que suas ilustrações são corretas ou não. Na verdade, os quadrinhos aparecem mais como forma de recuperação e transformação do que qualquer outra coisa. No entanto, foi uma belíssima escolha o fato de “Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot”, presente em um dos cartoons, como título do longa. Consegue deixar claro o humor irônico do filme, ao mesmo tempo em que preserva seu legado.

Com um elenco admirável, alguns personagens são pouco aproveitados, como é o caso de Rooney Mara (A Ghost Story). Seu papel ali funciona mais como prova de que deficientes físicos podem, sim, ter uma vida afetiva e sexual – mas nada além disso. Jack Black (Escola de Rock) também aparece poucos minutos, ainda que seu personagem seja importantíssimo para a trama. De fato, toda a atenção e complexidade, ficam de responsabilidade de Phoenix e Hill.

A Pé Ele Não Vai Longe é um ótimo filme para quem se interessa por desenvolvimento de personagens, porque o protagonista tem camadas interessantíssimas. Mesmo assim, o filme acaba sendo um pouco esquecível. Ainda que se trate de uma história real, acaba sendo genérica o suficiente para não marcar a memória de quem o assiste.