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  • Matheus Mans

Crítica: 'A Pequena Suíça', da Netflix, é comédia previsível


Ultimamente, as produções espanholas estão surpreendendo quem explora o catálogo da Netflix. Filmes como Depois da Tormenta e Um Contratempo surpreenderam quem se aventurou no suspense europeu, enquanto as séries La Casa de Papel e As Telefonistas se tornaram sucessos globais. No entanto, uma comédia espanhola que chegou ao catálogo na última sexta, 16, não poderia ser mais banal: é A Pequena Suíça, produção original da Netflix e dirigida pelo estreante em longas de ficção, Kepa Sojo.

A trama de A Pequena Suíça acompanha a jornada de uma pequena cidade, localizada na região central do País Basco. Os moradores do local, que tem um forte aspecto bucólico, vivem entre duas realidades. Afinal, a cidade ainda é considerada espanhola, apesar de estar no coração da província basca. E, quando tentam se tornar município basco, são rejeitados por conta de acordos comerciais. É aí que eles decidem, num ato de desespero, pedir á Suíça que os anexe por conta de uma descoberta arqueológica.

O longa-metragem lembra qualquer outra produção que relate cidades interioranas de grandes países europeus -- como o delicioso Normandia Nua, no interior da França. E isso poderia ser a receita para o sucesso se Kepa Sojo tivesse seguido uma fórmula batida, mas eficaz, de mostrar a saga da cidade como um todo, trazendo pequenas participações de personagens, e com deliciosos aspectos daquela vida em comunidade. A própria localização atípica da cidade traria os elementos diferenciais ao longa.

No entanto, Sojo acaba investindo em piadas bobas, personagens estereotipados e histórias que se sobrepõem ao possível aprofundamento da cultura basca. Não há muitas produções leves e divertidas sobre a região. Um filme dessa maneira, distribuído globalmente pela Netflix, poderia despertar a atenção das pessoas. Mas, da maneira que foi conduzida pela diretor estreante, só serve par afastar ainda mais. É um besteirol espanhol, mas sem piadas que funcionem. Só um amontoado de clichês e bobagens.

Veja os personagens principais, por exemplo. Gorka (Jon Plazaola) e Yolanda (Maggie Civantos) que são envolvidos em situações que beiram o ridículo desde a primeira cena. Química forçada, situações delirantes. Difícil agradar. O padre Don Anselmo (Secun de la Rosa) é a caricatura mais óbvia e banal que se faz se figuras religiosas. Não há um pingo de criatividade na sua construção -- assim como a do prefeito e do chato da cidade.

O que move retratos interioranos da Europa são as boas descrições e recriações do que é viver lá. Pode ser feito graça (como em Normandia Nua, já citada), desde que faça sentido e seja criado um vínculo com o espectador. Dessa forma que foi feita pela Netflix, só há desserviço. Um local de cultura tão rica e plural acaba servindo apenas para piadas sem graça e, o pior, para colocar uma complexidade regional à serviço de outros países, outras regiões. Não é bom de assistir. Não tem graça, não tem cultura.