• Matheus Mans

Crítica: 'A Sombra do Pai' é filme que mergulha em clichês com trama banal


Dalva (Nina Medeiros) é uma menina de 9 anos que se torna responsável por sua casa quando o pai, o pedreiro Jorge (Julio Machado), fica doente e entra em um profundo processo de luto. Órfã de mãe, ela precisa deixar de lado a infância para cuidar do pai que, por sua vez, tem que lidar com a frustração de perder aspectos de sua paternidade. Enquanto isso, a tia Cristina (Luciana Paes) parece ser a única que vê as coisas com clareza nessa casa, enxergando um dom mediúnico na garota e os problemas do pai

Dirigido por Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial), o longa-metragem tem um pé forte no terror, ainda que o drama familiar seja presente em toda linha narrativa. Afinal, o que norteia todos os aspectos dessa produção, que volta a ter o selo de Rodrigo Teixeira, são as complicações familiares que partem do luto. O pai não consegue viver e enxerga a menina como a concentração de suas dores e perdas. Já a tia é frustrada amorosamente e, ainda que goste da garota, enxerga que está perdendo seu tempo ali.

A menina, bem interpretada pela estreante Nina Medeiros, concentra tudo isso em cima de si. Capaz de dominar uma espécie de magia, ela tenta resolver todos os problemas familiares, como uma ferida nas costas do pai, as frustrações da tia e, claro, a morte da mãe. Essa situação, por si só, já é um terror real e familiar angustiante. Como poucos.

No entanto, Gabriela volta a cometer os mesmos equívocos vistos em O Animal Cordial. Ainda que este seu filme anterior tenha agradado boa parte da crítica especializada, parece que muitos foram pegos desprevenidos e embalaram num entusiasmo juvenil com o longa -- como falamos aqui no Esquina. Em ambas as produções, Gabriela bebe de influências óbvias e que, no caso de A Sombra do Pai, até escancara na tela em cenas que não fazem muito sentido. Essa influência, porém, acaba indo além das pinceladas.

Os filmes da cineasta acabam se ancorando demais em outras histórias e os clichês se tornam, invariavelmente, o sustentáculo de suas produções. As boas metáforas de Gabriela acabam soterradas em dezenas de situações banais, que muitas vezes nada querem dizer. Resgato, aqui, algo que disse no texto de O Animal Cordial: "apesar do frescor que a produção de Gabriela Amaral Almeida traz ao cinema nacional, falta objetividade e cuidado apurado no roteiro". É isso. O mesmo vale para seu novo filme.

Ainda que as coisas aqui não corram tanto quanto no filme estrelado por Murilo Benício, muito é deixado de lado, pouco explicado. Claro, não exigimos didatismo. Mas é preciso, ao menos, se fazer entender. A personagem da menina deveria ser a mais complexa em cena, mas acaba desperdiçada tentando resolver tudo. Parece que não desenvolve. O protagonismo acaba caindo nas costas de Júlio Machado (Entre Irmãs), que está bem no papel, mas que não tem o magnetismo que o filme exige. Tudo fica um pouco perdido.

Isso sem falar de aparatos técnicos óbvios, como a trilha sonora nada marcante -- e que parece com outras mil já feitas na mesma forma -- e a fotografia menos exuberante do que o trabalho anterior. De alguma maneira, isso ajuda a mascarar a história. Aqui, não.

No entanto, o filme ainda tem uma fina camada metafórica -- e um final interessante -- que pode fazer com que muitas pessoas ignorem os erros e partam pro abraço. O que também é ótimo. Ainda que haja outros exemplares de terror nacional bem melhores (As Boas Maneiras e Trabalhar Cansa, principalmente), é sempre importante valorizar produções nacionais do gênero. Debatam, gostem, amem, odeiem. Aqui no Esquina, a avaliação é regular. Mas recomendamos veementemente que você, leitor, vá ver e avaliar por si só. É cinema, é terror, é filme nacional. Merece mais atenção.