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  • Matheus Mans

Crítica: ‘A Torre Negra’ é desprovido de qualquer emoção


É praticamente indiscutível: a série A Torre Negra é um dos principais trabalhos do escritor Stephen King e um dos grandes destaques da literatura de ficção moderna. Os seus livros contam com detalhes de cair o queixo e uma jornada épica que beira a trama de O Senhor dos Anéis -- para alguns, a obra de King ultrapassa a de Tolkien em inventividade. O filme, porém, não faz jus aos livros com erros em seu desenvolvimento e um resultado amargo para fãs da obra.

A trama do filme de A Torre Negra lembra a dos livros, mas tem uma estrutura um pouco diferente: no longa, acompanhamos Jake (Tom Taylor), um menino com sonhos frequentes sobre um universo paralelo assustador. Nele, o Homem de Preto (Matthew McConaughey) tenta derrubar a tal Torre Negra, que é o último bastião do universo e deve proteger toda a humanidade contra um ataque de monstros. No caminho, apenas o Pistoleiro (Idris Elba), o último de sua classe.

A história ganha impulso, então, quando Jake passa por uma série de difíceis experiências e, por fim, termina por atravessar um portal que o leva para o universo do Homem de Preto e do Pistoleiro. Lá, ele vira o alvo do vilão -- afinal, sua consciência e seu poder mental é o que pode derrubar a Torre Negra -- e começa um verdadeira corrida de gato e rato, onde o garoto conta apenas com o apoio do Pistoleiro para se defender dos monstros do universo e da gana do Homem de Preto.

Para quem leu os livros, as mudanças na trama são aparentes logo no começo. O foco não é a perseguição entre Pistoleiro e Homem de Preto, como é visto nas primeiras histórias de King. Pelo contrário. Em A Torre Negra, o mediano diretor Nikolaj Arcel (do ótimo O Amante da Rainha e do fraco Island of Lost Souls) joga toda a responsabilidade da trama em cima da personagem de Jake. O Homem de Preto e o Pistoleiro, então, se tornam apenas parte da narrativa. Quase coadjuvantes.

Isso não seria problema nenhum se os quatro roteiristas (sim, quatro) tivessem deixado a essência da história de King. Mas não. Toda a mitologia do universo é subaproveitada e o foco da trama é inteiramente jogado para Nova York nos dias atuais -- algumas sequências contam até mesmo com o Pistoleiro comendo um hot dog em uma barraca de rua. Todo o clima de faroeste do livro ficou para trás. O Pistoleiro deixou de ser um Clint Eastwood para ser um alienígena que caiu na Terra.

E, de novo, isso não seria problema algum se a história fosse interessante. O que, de novo, não é. Os 90 minutos da projeção se resumem à perseguição entre O Pistoleiro e o Homem de Preto, com Jake sendo protegido. Pior: nada causa emoção, nada causa empatia. É uma história desprovida de qualquer conexão com a audiência, que assiste passível tudo o que se passa na tela. Afinal, a direção apressada de Nikolaj também não ajuda o espectador a imergir na trama.

O que salva o filme de um desastre total são as atuações de Idris Elba e do garotinho Tom Taylor. Elba se esforça para entregar um Pistoleiro interessante, ainda que sua personagem seja rasa e pouco desenvolvida. Taylor, enquanto isso, se esforça para mostrar serviço com um garoto levemente atormentado. Convence. Só Matthew McConaughey que erra a mão. Sua atuação é de uma canastrice inacreditável. Parece que ele está fazendo uma grande piada. Perdeu pontos.

No fim, A Torre Negra é uma grande decepção. A obra mais megalomaníaca de King virou um filme sem sal, sem sabor e sem graça. É apático do começo ao fim. Nada justo com o escritor que rendeu filmes como À Espera de Um Milagre, Um Sonho de Liberdade, Conta Comigo, Misery e IT. Com um material original tão bom, o resultado do filme deveria ser muito superior. Agora, é torcer para que o futuro da série de livros ganhe novos ares e não seja mais prejudicada no cinema.

RUIM