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  • Matheus Mans

Crítica: 'A Tragédia de Macbeth' é espetáculo visual e de atuação


Um dos textos seminais de William Shakespeare, Macbeth já ganhou algumas dezenas de interpretações nos cinemas -- a mais recente foi Macbeth: Ambição e Guerra, um filme interessante com Michael Fassbender no papel principal. No entanto, poucas adaptações da peça são tão poderosas quanto A Tragédia de Macbeth, filme exclusivo e original do Apple TV+.


Dirigido por Joel Coen, que desta vez parte para a empreitada de direção sem o irmão Ethan, o longa-metragem conta a história de Macbeth (Denzel Washington), homem poderoso da Escócia que é convencido por um trio de bruxas que se tornará o rei da Escócia. Essa visão o toma de assalto. Rapidamente, o protagonista fica obcecado em fazer com que isso se torna realidade.


Ao lado dele, ainda há Lady Macbeth (Frances McDormand). Poderosa, ela aprofunda o pensamento do esposo de que ele está destinado a colocar a coroa na cabeça. É neste ponto que a sanidade do personagem some: ele passa a cometer crimes e até mesmo a conspirar contra o próprio rei apenas para que a visão daquelas três bruxas seja materializada de qualquer forma.


Joel Coen, ao lado de um trabalho de fotografia sublime de Bruno Delbonnel, transforma a poesia em fábula. A clara inspiração no expressionismo alemão, assim como referências diretas ao trabalho de Ingmar Bergman, amplificam a sensação de existencialismo que há em Macbeth. O protagonista está vivendo em busca de suas conquistas ou apenas existindo pelo destino?

As angulações do cenário, assim como a grandiosidade de escadarias, portais e portas, trazem significado para dentro da história. A Tragédia de Macbeth coloca o impacto da narrativa de Shakespeare para dentro da imponência do visual. É algo que atravessa a tela e faz com que o espectador sinta aquela história como se estivesse realmente imerso dentro da conspiração.


Coen opta por não adaptar o texto de Shakespeare para a modernidade, mantendo a poesia e o lirismo do inglês nos diálogos. É cansativo? Com certeza. No entanto, esse cansaço vai sumindo na atuação magnética de Washington (Dia de Treinamento) e McDormand (Nomadland). Os dois estão absolutamente soberanos em cena, tomando o texto para si em uma cadência potente.


Seria uma injustiça tremenda se A Tragédia de Macbeth não for indicado para o Oscar por Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Design de Produção e, é claro, Melhor Fotografia -- estes dois últimos, sinceramente, merece ganhar. É um trabalho de primeira, que mostra o que é o cinema de verdade. Não há brechas, não há espaço para que essa história perca toda sua potência.


Tudo isso sem falar do diálogo entre teatro e cinema. O texto vem da peça de Shakespeare, mas o visual bebe da fonte do expressionismo alemão. Há uma mistura, uma mescla, uma síntese entre as artes. Os palcos estão na tela, a tela leva significado para a peça. É uma troca rara de se ver e que raramente funciona tão bem. Há poesia na tela, assim como força e grandes atuações.


A Tragédia de Macbeth é um filme potente, verdadeiro, belo. Começa com certa estranheza pelo texto rebuscado, mas logo traga o espectador para dentro dessa trama de traição, dor, ganância e ambição. Não tenha dúvidas de que esta produção, que mostra como Joel Coen é um realizador para além da mesmice de seu estilo, é um dos grandes do ano. Quiçá, da década.

 

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