• Matheus Mans

Crítica: Documentário sobre Adoniran emociona, mas é raso


Mais do que sambista, mais do que uma prova de que São Paulo não é o túmulo do samba, mais do que um cronista da cidade. Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, era um verdadeiro poeta social. Engolindo a dor do que ele via transcorrer em frente aos muros cinzas da cidade desde tempos imemoriais, Adoniran devolveu samba. E dos bons. Não é à toa que deixou sua marca indelével em São Paulo e hoje, mais de 30 anos após sua morte, continua a ter sua obra perpetuada por meio de livros, releituras de músicas e filmes sobre sua história.

Uma dessas obras que trabalha em prol da memória de sambista é o documentário Adoniran -- Meu Nome é João Rubinato, que abre os trabalhos do festival É Tudo Verdade, em 2018, e se prepara para posterior exibição em grande circuito. A direção ficou a cargo de Pedro Serrano, que já se mostrou entendedor quando o assunto é Adoniran: foi ele a mente e o talento por trás do ótimo curta Dá Licença de Contar, que colocou o artista Paulo Miklos interpretando o compositor de clássicos como Trem das Onze, Saudosa Maloca e Tiro Ao Álvaro.

No entanto, infelizmente, pode-se dizer que o documentário não é tão genial quanto o curta e, também, não faz jus totalmente à memória de Adoniran. Como a própria produção insiste em dizer várias vezes, por meio de entrevistas com amigos, familiares e estudiosos, Adoniran sempre foi um gênio incompreendido, uma mente brilhante que "se escondia" nas letras aparentemente erradas e disformes para, no final, pintar um quadro tragicômico sobre a cidade.

Adoniran -- Meu Nome é João Rubinato até começa de maneira interessante em sua forma de narrativa, ao inverter a ordem das coisas e colocar a morte do sambista logo nos primeiros minutos, alavancando a emoção da plateia. Porém, logo depois, Serrano passa a investir num formato extremamente formulaico. Ao invés de usar poesia para contar a vida e obra de Adoniran, ele decide usar apenas as chamadas entrevistas "talking heads" e muita imagem de acervo, muitas vezes óbvia.

Isso não seria problema, porém, se o diretor/roteirista não tivesse feito uma opção ainda mais arriscada ao contar a história de Adoniran por meio de suas músicas. Para quem conhece pouco de Adoniran, essa estratégia pode até agradar e gerar aqueles tradicionais "olha aquela música!" ou, então, as exclamações de surpresa sobre as histórias reais que sempre permaneceram nos bastidores. No entanto, ainda assim, é um tanto quanto cansativo.

Afinal, é um ciclo sem fim durante 90 minutos. Toca Prova de Carinho e alguns entrevistados falam sobre o relacionamento dele com a esposa Matilde. Depois, toca Trem das Onze e falam sobre o grande estouro de Adoniran, da versão em italiano e do fato dele não ter conhecido direito o Jaçanã. E por aí vai. São coisas que já são um pouco sabidas e que são contadas de maneira formulaica -- afinal, Serrano ainda é muito novo e precisa de muito mais experiência. Adoniran, do alto de sua genialidade e poesia, não tem um retrato à altura.

Seria muito injusto, porém, dizer que Adoniran -- Meu Nome é João Rubinato é ruim ou apenas regular. De jeito nenhum. O documentário, mesmo incomodando com a aparente normalidade de sua narrativa e a falta de ousadia, consegue emocionar forte em alguns pontos específicos. As imagens de arquivo recuperadas por Serrano são um esplendor. É possível conferir entrevistas, bastidores, shows de Adoniran nunca apresentados ao grande público. É lindo de se ver.

A vida de Adoniran também está muito bem resumida. Para quem leu a boa biografia Adoniran, do Celso de Campos Jr., vai identificar os principais aspectos da vida do sambista na tela, ainda que algumas boas histórias tenham sido suprimidas -- como a "parceria" com Vinicius de Moraes, o relacionamento com o neto, e por aí vai. Para quem conhece pouco ou quase nada de Adoniran, o documentário é uma boa porta de entrada. Depois, só ir correndo ler a biografia.

Os entrevistados são poucos, mas vão direto ao ponto. A filha, o sobrinho e o biógrafo dão bons relatos, principalmente quanto a comprovar ou negar lendas e boatos que circulam há décadas sobre o sambista. Eduardo Gudim e Carlinhos Vergueiro ajudam a dar força e emoção ao filme, assim como a boa participação da atual formação do Demônios da Garoa, tão essencial para Adoniran.

O ouro dos depoimentos, porém, está nas mãos do artista plástico Elifas Andreato e do produtor musical Pelão. As histórias dos dois com Adoniran emocionam e dão uma força indescritível à produção de Serrano. No final, quando Pelão fala da bicicleta de brinquedo e Elifas, num longo relato, sobre a figura do triste palhaço, é difícil segurar a emoção. Mais difícil ainda quando Serrano acerta na escolha de acervo e coloca uma última imagem de Adoniran, ao seu estilo próprio, marcando o encerramento do documentário, e uma poesia belíssima de Antônio Cândido.

Por mais que tenha erros e seja extremamente formulaico em sua narrativa, a emoção de ir à encontro da história de Adoniran é impactante. O bom resgate de acervo e a boa apresentação das músicas do sambista -- indo de Trem das Onze, passando por Tiro ao Álvaro e até No Morro da Casa Verde -- ajudam a construir uma boa experiência com o longa. Ainda falta a grande obra audiovisual de Adoniran, mas é satisfatório ver que sua memória, aos poucos, está sendo resgatada e perpetuada pelo Brasil. Adoniran era um gênio e ele merece ser lembrado.

* O filme foi visto durante a cobertura do festival É Tudo Verdade, de 2018.

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