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  • Matheus Mans

Crítica: 'Ainda Temos a Imensidão da Noite' é nostalgia perdida no tempo


É gostoso vivenciar um momento de nostalgia de vez em quando. Voltar a sentir a sensação, a vida e os costumes de épocas que nunca mais voltam ajuda, inclusive, a nos fazer pensar no hoje. Traçar paralelos, fazer comparações, entender nossos tempos. No entanto, para isso funcionar, a nostalgia precisa vir carregada de significados e um bom motivo por trás. E não é isso que acontece no novo Ainda Temos a Imensidão da Noite.

Dirigido pelo talentoso Gustavo Galvão, de Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa, o longa-metragem conta a história de Karen, a vocalista e trompetista de uma banda que fica cansada de lutar por um lugar ao sol com seu grupo de rock em Brasília. Assim, ela segue os passos do ex-parceiro de banda Artur, que tenta a sorte em Berlim., a convite de Martin, um amigo alemão com quem os dois fecham um triângulo imprevisível.

Aqui, tudo parece carregado de poeira. A nostalgia, que poderia ser interessante se Galvão emulasse os anos 1990 ou 1980, se perde em significado a partir do momento que a protagonista, vivida por Ayla Gresta, resiste em coisas que tocam o vazio. Uma ou outra situação interessa, mas falta potência -- ainda mais com o Brasil vivendo tempos que exigem uma resistência mais proativa, como a vista em Bacurau ou Aquarius.

Ainda Temos a Imensidão da Noite é um filme descompassado, fora de tom. As coisas parecem não encaixar, a história não flui. A nostalgia, que atravessa a resistência, parece ser até de mal gosto. Não há empatia, não há compreensão. Tudo some no ar. As coisas são banais, por vezes superficiais demais. E tudo anda em ciclos. Repare: o filme, na maior parte do tempo, altera apenas a localização. A história é sempre a mesma.

E ainda tem esse tal triângulo amoroso que nada contribui para a narrativa e só ajuda a tornar o filme ainda mais cafona e empoeirado. Não há nem empatia, nem torcida.

O elenco, ainda que empenhado, também pena para conseguir acompanhar a história. Muito disso é culpa do roteiro, escrito por Galvão, Barbie Heusinger e Cristiane Oliveira (Mulher do Pai), que transita entre diálogos extremamente naturais e outros que parecem saídos de peças de teatro de outras décadas. Não há fluidez nesse ritmo que se alterna e que acaba, de alguma forma, afetando a experiência do espectador.

No final, os pontos positivos acabam reduzidos em algumas boas atuações -- de Marat Descartes (Quando Eu Era Vivo), principalmente --, um bom clima e algumas cenas interessantes. Principalmente a de abertura, com a protagonista sendo acordada por sons de construção e respondendo com música. Nada, depois disso, tem a mesma potência, força, carisma. É um filme que, infelizmente, chega cheirando a mofo e poeira.